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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

ACM Neto mostra que o DEM é mais esperto que Bolsonaro e o Centrão

ACM Neto com Jair Bolsonaro - Alan Santos/PR/Divulgação
ACM Neto com Jair Bolsonaro Imagem: Alan Santos/PR/Divulgação
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

08/02/2021 08h21

Não menospreze a esperteza política de Bolsonaro. Ninguém é eleito presidente da República inocentemente. E, agora, se fosse bobo, ele não teria derrotado Rodrigo Maia na eleição de presidente da Câmara. Essa disputa mostrou que Bolsonaro é esperto, mas o centrão é mais. E o DEM é mais ainda que todos eles, incluindo o pobre Rodrigo.

Veja o que tem dito o presidente do DEM, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto: o partido não é governo, nem oposição. Tem dois ministros no governo, pode ganhar mais e, em 2022, pode ir de Doria, com as esquerdas ou até mesmo com Bolsonaro.

Só tem uma restrição: gostaria que Bolsonaro parasse de falar besteiras contra a pandemia do coronavírus e coisas assim. Afinal, isso está espantando eleitores.

Pois é, o jogo agora é de profissionais. Bolsonaro entrou no governo jogando truco. Aquele carteado que a turma vence no grito.

Aí os ministros capas pretas do Supremo Tribunal Federal resolveram bater na mesa, partiram para o enfrentamento. O presidente viu que estava começando a perder e chamou o centrão para a mesa.

O centrão aceitou, mas com uma condição: quer dar as cartas. Bolsonaro acha que dá para negociar. Como não é bobo, promete entregar o baralho aos poucos. É essa reforma ministerial, em que ele aceita mudar os ministros, mas avisa que será a conta-gotas.

Para ganhar o jogo, o centrão fez as contas e viu que precisava da turma do DEM, chamou-os para o baralho. Mas os demistas são profissionais. Assim como o centrão entrou, saiu e entrou em todos os governos, o DEM entrou, saiu e entrou no centrão. Faz com o bloco de partidos disformes de centro o que o grupo faz com os governos.

Tudo bem, ajudou na primeira etapa do carteado, mas agora quer jogar um jogo mais complexo. Jogo de profissionais: pôquer. O baralho não é de ninguém, roda na mesa, vale blefe, mas sem gritos, e os cacifes para começar a partida são mais altos. Aposta-se inclusive a eleição de 2022.

Para Bolsonaro, sua reeleição é um jogo de vida ou morte. É isso que o DEM coloca na mesa agora. ACM Neto ainda não sentou. Deixou representantes do partido em seu lugar. Ameaça partir para a mesa do Doria, do Luciano Huck, do Ciro Gomes ou quem mais vier.

Bolsonaro tem até o final desse semestre para mostrar que consegue entregar o baralho e as fichas que o DEM e o centrão querem e ainda guardar um pouco. Se não conseguir, a turma toma tudo dele na marra. E jogo jogado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL