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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Na CPI da Covid, Bolsonaro engana até mesmo os bolsonaristas

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

29/04/2021 09h42Atualizada em 29/04/2021 14h28

O presidente Jair Bolsonaro é como diz o Fernando Pessoa: um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir pra sua gente. Na CPI da Covid, até agora, é isso que tem mostrado. Colocou os bolsonaristas na linha de frente para as missões inglórias enquanto, nos bastidores, tenta se entender com os integrantes da comissão.

Caberá aos bolsonaristas, por exemplo, insistir em tentar tirar o senador Renan Calheiros da relatoria da comissão. Renan não é bobo. Isso é um jogo que ele sabe jogar e está decido a não arredar pé.

Por enquanto, ele tem o apoio total da cúpula da CPI. Leia-se o presidente do colegiado, senador Omar Aziz, o vice-presidente, Randolfe Rodrigues e os líderes Eduardo Braga, do MDB, e Otto Alencar, do PSD, que são integrantes da comissão.

Não quer dizer que o MDB e o PSD não possam mudar de lado. Mas, para isso, Bolsonaro terá que pagar muito caro e não se sabe até quando terá bala na agulha para cumprir promessas.

A história já nos mostrou isso. Os ex-presidente Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff tinham o apoio dos partidos de centro, o centrão, que muitas vezes foi integrado pelo MDB e pelo PSD. Mas foram se enfraquecendo e chegou a um ponto que não podiam mais pagar pela manutenção do apoio. Acabaram sofrendo impeachment.

Bolsonaro sabe muito bem dessa história. Por isso, enquanto solta seus pitbulls contra Renan e companhia, procura amaciar a turma e construir pontes de diálogo.

Já até telefonou para o governador de Alagoas, Renan Filho, o Renanzinho, filho do Renan, acenando com a bandeira branca. Renanzinho, que, como o pai, não é bobo, estendeu o tapete vermelho para decidir, mais adiante, se puxa ou não o tapetão.

O presidente da República já escalou até o seu interlocutor com a oposição na CPI. Trata-se do senador piauiense Ciro Nogueira, amigo de Renan longas jornadas e presidente nacional do PP, o maior partido do centrão.

Diferentemente dos demais integrantes da bancada governista na CPI, Ciro votou a favor de Omar Aziz para presidente da comissão. Foi poupado pelo Palácio de assinar o pedido de retirada do Renan da relatoria, enviado pelos bolsonaristas da CPI ao Supremo Tribunal Federal.

Assim como o MDB e o PSD, não se sabe ao certo de que lado o PP de Ciro Nogueira estará ao final dessa história.

Pensando bem, não é só Bolsonaro quem trabalha com a máxima do Fernando Pessoa. Os políticos, em geral, são uns fingidores. Fingem tão completamente que alguns deles até acreditam naquilo que encenam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL