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Tales Faria

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Governo instrui tropa de choque na CPI a derrubar Renan da relatoria

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

13/05/2021 08h20

Inviabilizar de todas as formas a atuação do senador Renan Calheiros (MDB-AL) como relator da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado. Essa é recomendação do Palácio do Planalto à sua tropa de choque.

A decisão de partir para uma postura ainda mais radical foi tomada depois do depoimento desta quarta-feira, 12, do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten.

A avaliação do governo é de que o ex-secretário deu munição para a oposição na CPI, especialmente ao entregar cópia da carta enviada pela Pfizer ao presidente Jair Bolsonaro e aos ministros. A carta é uma prova de que, desde setembro do ano passado, Bolsonaro e ministros com poder de decisão — como Paulo Guedes (economia) e Eduardo Pazuello (Saúde) — tinham em mãos uma proposta de compra de grandes quantidades vacinas contra o coronavírus. E que nada foi feito.

O Planalto não gostou também do desempenho dos senadores governistas na comissão. A conclusão é de que está faltando energia para a chamada tropa de choque na defesa do presidente e, nesta quarta-feira, na defesa do próprio Wajngarten. A desconfiança é de que isto ocorreu porque o ex-secretário não conta com a simpatia nem mesmo dos senadores governistas.

Também foi avaliado que Wajngarten saiu com sua imagem pessoal muito deteriorada, porque deixou claro que estava mentindo no depoimento. E que ele próprio integrava um comando paralelo da pandemia apartado do Ministério da Saúde.

Mas, para o Planalto, houve um ganho nisso tudo: Renan Calheiros viu-se obrigado a um gesto de radicalismo, pedir a prisão de Wajngarten. Isso trincou a relação do grupo de oposição ao governo na CPI com os chamados independentes, liderados pelo presidente do colegiado, Omar Aziz (PSD-AM).

O senador amazonense avaliou que a prisão serviria para carimbar a CPI como um jogo de cartas marcadas e não acolheu a proposta de Renan. Os dois protagonizaram um momento de franco constrangimento. "Se o senhor quiser, peça a prisão dele. Eu não o farei", disse rispidamente Aziz para Renan.

Para o presidente Bolsonaro, quem teve o melhor desempenho na CPI foi seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que não é membro do colegiado, mas foi à sessão para defender Wajngarten e chamou Renan Calheiros de "vagabundo".

O presidente ligou para o filho e deu os parabéns. Disse que gostaria que os senadores governistas na CPI fizessem o mesmo. Bolsonaro acha que, daqui para a frente, o ambiente deve ser o mais radicalizado possível contra Renan.

A estratégia é convencer o grupo independente de que, com Renan como relator, os trabalhos da comissão se tornarão inviáveis. Com isso, pode-se forçar um acordo em que o senador alagoano abriria mão do posto em favor de outro emedebista, como por exemplo o líder do partido, Eduardo Braga (AM).

O depoimento de Eduardo Pazuello, marcado para a próxima quarta-feira, 19, pode ser usado como um momento ideal para "tirar Renan do sério", disse ao blog um dos articuladores do governo.

Renan como já se viu na última vez que concorreu a presidente do Senado, tem um temperamento explosivo. Se sofrer muitos apupos, pode acabar dando razão aos que dizem que ele não tem isenção nem equilíbrio para atuar como relator.

Resta saber se o senador alagoano vai cair na provocação.