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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro montou batalha dos generais sem tropa contra generais com tropa

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

08/07/2021 10h57

Há dois tipos de generais no Exército: os que têm tropa e os que não têm tropa. Os generais sem tropa são aqueles que já deixaram o serviço ativo ou ocupam cargos de menor interferência sobre os quartéis, incluindo os que atuam em órgãos civis, como as estatais. Ao distribuir a granel para militares postos no governo, Bolsonaro tornou-se hegemônico entre os generais sem tropa.

Mas o Alto Comando do Exército representa, basicamente, os generais com tropa mais antigos no serviço ativo. É composto pelo comandante do Exército e 15 generais quatro estrelas. São eles: o chefe do comando de Operações Terrestres, os sete comandantes regionais (do Leste, Oeste, Amazônia, et cetera), e outros chefes de áreas de grande interferência na Força.

A pandemia e os escândalos em torno do Ministério da Saúde revelaram que, na verdade, Bolsonaro vem comandando uma batalha para a tomada completa das Forças Armadas.

Primeiro, já antes das eleições, ele trabalhou a simpatia do baixo clero das tropas - o que luta para manter desde que assumiu o governo. Ora participando de solenidades como entrega de espadins, ora promovendo programas sociais como o de crédito especial para a casa própria de militares de baixa patente.

Já no governo, Bolsonaro trouxe para o seu lado os militares de patentes mais altas, incluindo generais com altos cargos comissionados distribuídos pelos diversos órgãos do Executivo. Como ocorreu no Ministério da Saúde. Mas esse grupo, em geral, são os militares sem tropa.

O Alto Comando continuou resistindo a se entregar de corpo e alma. E Bolsonaro sonha com o apoio desse grupo para seus embates políticos. É justamente no que alto generalato da ativa e com tropa não quer ser usado. Esses generais sabem que a mistura da caserna com a política resultou em 20 anos de ditadura e lançou ao chão a popularidade dos militares, só retomada nos últimos anos.

Mas a resistência dos generais da ativa está se tornando cada vez mais difícil. Os militares sem tropa no governo misturaram-se com os políticos do centrão e acabaram absorvendo o modus operandi destes. Com isso atraíram para o meio militar a luta entre grupos da política.

Misturaram-se com as disputas internas do MDB, do PSDB, da esquerda contra a direita, do senador alagoano Renan Calheiros contra seu adversário no Estado e presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira, e do governo contra a oposição na CPI da Covid. Acabaram escancarando a roubalheira no Ministério da Saúde e colocando o tema também como assunto interno do meio militar.

Bolsonaro torce para que isso tudo faça com que os generais com tropa, da ativa, se vejam obrigados a blindar os militares sem tropa, do governo. Se isto ocorrer, ele terá vencido a batalha e poderá partir mais forte para a sua guerra principal, na política.

Mas se, de alguma forma, o generais com tropa não caírem na armadilha, o Exército sairá maior da batalha. E melhor para o país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL