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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por medo de nova indiscrição, Bolsonaro afaga o ex-ministro da Educação

Colunista do UOL

27/06/2022 15h21

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Assim que estourou o escândalo da prisão do seu ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, o presidente Jair Bolsonaro tentou se afastar do auxiliar. Chegou a declarar que cabia a Ribeiro se explicar, e que nada tinha com a história.

Mas eis que surgiu a gravação da conversa telefônica entre Milton Ribeiro e sua filha. Nela, o ex-ministro conta que Bolsonaro o alertou de que "teve um pressentimento" de que haveria a busca e apreensão em sua casa.

Não só ocorreu a busca e apreensão, como ela foi acompanhada da prisão de Milton Ribeiro.

Aí Bolsonaro, que andava arrependido de ter declarado que colocaria a "cara no fogo" pelo antigo auxiliar, resolveu assumir a defesa do ex-ministro. Neste domingo, 26, em entrevista ao programa "4 por 4", feita por apoiadores do governo, o presidente declarou que Milton Ribeiro "foi preso injustamente", pois não via "o mínimo indício de corrupção" nas investigações.

O que estaria por trás dessa mudança de comportamento do presidente?

Auxiliares de Bolsonaro expressaram reservadamente à coluna o temor de que apareçam novos áudios com afirmações comprometedoras de Milton Ribeiro. E que esse temor é compartilhado por Bolsonaro.

Tudo o que não se quer descobrir é uma nova conversa como essa entre o ex-ministro e sua filha. Afinal, o presidente Jair Bolsonaro estava em viagem aos Estados Unidos quando teria ocorrido o tal telefonema em que ele contou a Milton Ribeiro sobre seu, digamos, pressentimento.

Quem estava na comitiva do presidente era o ministro da Justiça, Anderson Torres, que em última instância chefia a Polícia Federal. Bolsonaro o colocou no cargo após afastar o ex-ministro Sergio Moro, reclamando que não recebia informações da PF em casos envolvendo sua família.

Agora, pelo jeito, Bolsonaro consegue ter dados melhores, capazes, pelo menos, de despertar pressentimentos.

Mas o presidente fica preocupado só de pensar que seus eleitores podem estar se perguntando se teria Torres informado ao presidente, na viagem aos EUA, desta operação de busca e apreensão. Teria o ministro da Justiça ajudado o presidente a ter um "pressentimento" tão certeiro?

Bolsonaro já foi alertado de que é crime o vazamento pela PF deste tipo de informação, especialmente se o vazamento é passado para alguém envolvido nas investigações, como, digamos, um ex-ministro investigado sobre a montagem de um gabinete paralelo com pastores em sua pasta.

Daí surgiu a dúvida no Planalto: será que Milton Ribeiro cometeu outras indiscrições como esta? Ou, pior: será que há novos áudios? O ministro já se deixou gravar naquela reunião com prefeitos em que disse priorizar os pedidos dos pastores, por indicação expressa do presidente da República.

Milton Ribeiro tem dito aos auxiliares do presidente que não cometeu mais nenhuma indiscrição.

Mas, pelo sim, pelo não, o presidente acha melhor manter um boa relação com antigo auxiliar trapalhão. No mínimo, para evitar que ele fique falando por aí. Daí a mudança de tom neste final de semana.