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Thaís Oyama


Haverá choro e ranger de dentes se a Embraer for negociada com a China

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

27/04/2020 13h22

Jair Bolsonaro disse hoje que a Embraer pode ser vendida para "outra companhia", depois que a Boeing desistiu da compra. Membros da equipe econômica já defendiam que uma alternativa para a desistência dos americanos seria abrir negociações com os chineses. Ocorre que essa possibilidade deixa os generais de cabelo em pé.

A área aeroespacial é considerada sensível pelo fato de, na visão dos militares, envolver riscos à soberania nacional, da mesma forma que a área de telecomunicação - em especial, a tecnologia 5G. Setores do governo compartilham da ideia americana de que companhias como a Huawei — na briga para a implementação da infraestrutura necessária para o funcionamento da rede de quinta geração de celulares no Brasil— nada mais são do que o biombo empresarial do Partido Comunista chinês, interessado na obtenção de dados de informação estratégica dos países.

A desconfiança do governo brasileiro em relação à China é também o pano de fundo da fritura da ministra Teresa Cristina, da Agricultura. Defensora ardente do agronegócio (100 bilhões de dólares em exportações), ela mantém ótimas relações com o país asiático. Críticos de Teresa no governo, porém, consideram que o Brasil não pode se tornar "refém" dos chineses por causa do agronegócio, mesmo sabendo dos prejuízos que uma briga com o maior freguês do setor poderia causar.

A ministra, dizem esses críticos, deveria "modular melhor o seu discurso" em relação ao país asiático.

A piorar a situação de Teresa Cristina, do agronegócio e dos interesses chineses no Brasil, está o fato de, nesse caso, a opinião do núcleo ideológico do governo coincidir com a dos militares.

Se os argumentos dos generais estão centrados na defesa da soberania nacional, razão de sua existência, a dos olavistas e aliados dos filhos do presidente Bolsonaro são mais criativas, como mostraram recentemente o deputado Eduardo Bolsonaro e seus seguidores, muitos dos quais disseminam em posts a teoria de que os chineses "planejaram o coronavírus" como arma biológica para derrotar o rival americano.

Razões diferentes, resultados iguais.

No governo Bolsonaro, a China não terá vida fácil - e o mesmo se pode dizer dos que incorrerem na desgraça de serem vistos como seus aliados.

Thaís Oyama