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Diogo Schelp


O que segura a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, no cargo

Ministra da Agricultura, Tereza Cristina - UESLEI MARCELINO
Ministra da Agricultura, Tereza Cristina Imagem: UESLEI MARCELINO
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

27/04/2020 16h51

Discretamente, sem buscar os holofotes, Tereza Cristina, titular da pasta da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, construiu nos últimos treze meses uma das únicas gestões ministeriais do governo de Jair Bolsonaro dignas de aplauso. É por causa dessa discrição que Tereza Cristina, que vem sendo minada por uma ala do bolsonarismo, ainda consegue se manter no cargo em um momento em que até o superministro Paulo Guedes, da Economia, está sendo rifado.

Tereza Cristina entrou na mira do gabinete do ódio bolsonarista por pertencer ao DEM, o partido dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre (que simbolizam o demonizado Congresso Nacional), do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (que saiu após semanas de tensão com o presidente) e do governador de Goiás Ronaldo Caiado (que rompeu com Bolsonaro por divergências na luta contra a pandemia).

Além disso, Tereza Cristina manteve distância da polêmica que se seguiu à demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Não partiu para o ataque ao ex-colega, como fizeram o chanceler Ernesto Araújo e o ministro da Educação Abraham Weintraub. Só esse fato já basta para o gabinete do ódio, a fábrica digital de destruição de reputações comandada por Carlos Bolsonaro (filho do presidente), questionar a lealdade da ministra a Bolsonaro. Lealdade e subserviência, acima de boa gestão, são as únicas coisas que importam para o gabinete do ódio.

Houve até mesmo quem, nas fileiras do DEM, defendesse já na sexta-feira (24), o dia da demissão de Moro, a saída de Tereza Cristina do governo, para evitar a fritura que se seguiria.

Nas fileiras bolsonaristas há, inclusive, um candidato para substituí-la que atua abertamente pela sua queda. Trata-se de Luiz Antônio Nabhan Garcia, secretário de Assuntos Fundiários e ex-presidente da ressuscitada União Democrática Ruralista (UDR). A secretaria de Nabhan Garcia está vinculada ao Ministério da Agricultura; então, sim, a rigor ele conspira contra a própria chefe. Apoiador de primeira hora de Bolsonaro, ele não se conforma em não ter sido indicado para o posto mais alto no Ministério já no início do governo.

Ocorre que Nabhan Garcia não tem o apoio nem o respeito do braço moderno do setor agropecuário. "Ele é muito fraco", disse-me um representante de uma importante entidade ruralista. E Tereza Cristina tem o apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), ou seja, da parte organizada da bancada ruralista no Congresso.

O presidente Jair Bolsonaro, pelo menos por ora, parece disposto a manter Tereza Cristina no cargo, tanto que levou-a junto com os ministros Paulo Guedes, da Economia, e da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, para a conversa com jornalistas na porta do Palácio da Alvorada nesta segunda-feira (27). A presença de Guedes foi interpretada como uma maneira de o presidente dizer que está prestigiando o ministro e que ele ficará no cargo. O mesmo pode ser compreendido a respeito de Tereza Cristina.

Depois de perder Moro, Bolsonaro precisa manter o que resta de respeitabilidade em seu gabinete. Com a demissão de Moro, Bolsonaro perdeu o discurso anticorrupção.

Se perder Guedes, perderá o mercado. Se perder Tereza Cristina, corre o risco de perder o apoio do agronegócio. E seria péssimo romper com a bancada ruralista em um momento em que o presidente procura se aproximar do Centrão no Congresso.

O presidente encontrou-se com ACM Neto, presidente do DEM e prefeito de Salvador, na quinta-feira passada em Brasília. Essa tentativa de aproximação com a liderança do partido de Tereza Cristina pode ser entendida como mais um motivo para Bolsonaro mantê-la no cargo.

A atuação da ministra da Agricultura é elogiável principalmente pelos danos ao agronegócio que ela conseguiu evitar. Afinal, desde o início do governo, Bolsonaro e seus filhos (e também o chanceler Ernesto Araújo) em nada facilitaram o seu trabalho.

Quando o presidente criou uma crise com os países árabes por causa da promessa de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, lá se foi Tereza Cristina evitar um boicote aos produtos agropecuários brasileiros no Oriente Médio. Quando a crise de queimadas na Amazônia colocou em risco os interesses do setor na Europa, Tereza Cristina tratou de ir à Alemanha dar uma visão positiva e sustentável da produção agrícola brasileira. Quando o deputado federal Eduardo Bolsonaro comprou briga com a China, o maior importador de alimentos brasileiros, Tereza Cristina pôs panos quentes.

Tudo isso discretamente.

Eis a verdadeira razão para Bolsonaro ainda mantê-la no cargo: ela não provoca ciúmes no presidente.

Diogo Schelp