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Thaís Oyama


O alívio de Bolsonaro

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

06/05/2020 10h50

No dia da sua grande fala, Sergio Moro, o ministro símbolo do combate à corrupção, surgiu na TV com o semblante amargurado dos que se dobram a um engano. O "engano", nesse caso, atendia pelo nome de Jair Messias Bolsonaro. Com um discurso quase sem emoção nem adjetivos, porque ciente de que sua autoridade dispensava as duas coisas, o ex-juiz apresentou ao país o presidente que ele havia conhecido no governo: um mandatário desprovido de grandeza e disposto ao arbítrio para defender interesses pessoais e familiares. A fala de Moro chocou a plateia, constrangeu generais, emudeceu bolsonaristas e provocou uma inédita debandada de seguidores do presidente nas redes sociais.

O depoimento divulgado ontem foi o contrário de tudo isso. Não que Moro tenha recuado um milímetro do que disse na sua "grande fala". Pelo contrário, ao repeti-la ponto a ponto, acrescentando a ela detalhes e provas, mostrou que nada escondeu no dia em que acusou Bolsonaro na TV. Com o cálculo de praxe, cuidou para proteger a si mesmo de acusações criminais ("nunca disse que o presidente havia cometido um crime" — se dissesse estaria afirmando que fechou os olhos para um ilícito, definição para o crime de prevaricação) e presenteou os seus inquisidores com um completo roteiro de investigação infalível. Mesmo assim, frustrou boa parte da plateia que esperava ver sair do depoimento do ex-juiz a "bala de prata" que acertaria Bolsonaro na testa.

Impossível, já que o duelo mal começou.

Mas, para alívio do presidente, agora ele se dará no terreno bem mais árido da investigação policial, que nem de longe poderá repetir o impacto da primeira e momentosa fala de Moro.

Por isso, ontem, no Palácio do Planalto, o clima era de alívio. A avaliação de assessores era de que, no plano da batalha por corações e mentes, o pior passou. Quem tinha de debandar no episódio já debandou e, diante dos seus apoiadores fieis, o presidente poderá manter o discurso de que nunca, jamais, em tempo algum tentou interferir em investigações da Polícia Federal - Moro "exagerou' e ele, presidente, "apenas atuou para melhorar o desempenho da polícia".

O ex-capitão sabe que tudo o que a sua turma precisa para continuar ao seu lado é de um galhinho retórico onde possa se agarrar. Mesmo porque, para o núcleo duro de apoiadores do presidente, o inimigo principal nunca foi a corrupção, mas a esquerda e tudo o que ela representa (aos olhos dos bolsonaristas-raiz: a "ideologia de gênero", a ameaça a Deus e a família, a defesa das drogas, do aborto, dos bandidos e do "globalismo").

O presidente está convencido de que, ao menos diante da sua claque, sobreviveu a Moro. A partir de agora, a guerra é de advogados.

Thaís Oyama