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Thaís Oyama


Gasto com cartões sugere que Bolsonaro liberou a "geleinha"

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

10/05/2020 10h15

Jair Bolsonaro é tido e havido como um mão-de-vaca. Todo parente, amigo ou assessor tem uma história para mostrar como "o Jair" se irrita com desperdícios e gosta de economizar tostões.

Na campanha franciscana que fez para a Presidência, viajando de carro de uma cidade para outra, o ex-capitão deixava desconsolados colaboradores quando decidia que naquela noite iriam todos dormir na van para economizar o dinheiro do hotel.

Numa ocasião, durante um café da manhã numa padaria do estado do Rio, os assessores encostados no balcão faziam seus pedidos: pingado, pão na chapa, pão com manteiga, um pediu uma empada. Até que alguém perguntou: "tem uma geleinha pra passar no pão?". Bolsonaro se indignou: "Aí, não, né?". E decretou: "Todo mundo vai comer a mesma coisa. Manda pão francês — e sem manteiga". Foi a vez de um assessor se indignar: "Pão sem manteiga, Jair??". A resposta do chefe: "Molha no café, pô!".

Os jornais Folha de S.Paulo e também O Estado de S.Paulo publicaram neste domingo que os gastos com cartão corporativo da Presidência da República, usado para bancar despesas sigilosas do presidente Jair Bolsonaro, dobraram nos quatro primeiros meses de 2020.

A comparação foi feita em relação à média dos últimos cinco anos. Entre janeiro e abril, a Presidência gastou R$ 3,7 milhões com despesas cuja natureza permanecerá um mistério para os brasileiros.

Em novembro de 2019, o STF derrubou o artigo de um decreto segundo o qual a movimentação dos cartões de crédito corporativos do presidente deveria ficar sob sigilo. O Planalto foi notificado, mas não alterou o seu procedimento — alegou que ele estava amparado em outra legislação não modificada pela Corte.

Assim, manteve a prática de não revelar com o quê, onde e nem quando o presidente, um punhado de assessores e familiares gastam dinheiro público. A alegação é a mesma de governos anteriores: a revelação desses dados colocaria em risco o mandatário, dado que a maior parte das despesas diz respeito a questões de segurança e que o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), apesar de defender a transparência nos gastos públicos, considera arriscado divulgar esse tipo de informação.

Em 2008, quando era deputado federal, Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara para desafiar o governo Lula a "abrir os gastos" com os cartões corporativos — na ocasião, a imprensa havia mostrado que a modalidade de pagamento vinha sendo usada por ministros até para comprar mesas de sinuca.

Durante toda a sua campanha, Bolsonaro cobrou a transparência e a moralidade dos gastos públicos. A constatação de que, no poder, despreza o primeiro princípio e não se importa em provar que observa o segundo é apenas mais um item na lista de decepções que ele inflige aos seus apoiadores.

A época do pão sem manteiga ficou na campanha.

Mas Bolsonaro faria bem em mostrar que ainda não liberou a "geleinha".

Thaís Oyama