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Thaís Oyama


Queiroz recebeu "mamadeira com Nescau" quando o escândalo estourou

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

18/05/2020 05h00

Uma semana depois de os Bolsonaro receberem o recado de um delegado da Polícia Federal de que o nome de Fabrício Queiroz iria surgir no escândalo da "rachadinha", o assessor de Flávio Bolsonaro e amigo de mais de trinta anos de Jair Bolsonaro foi exonerado de suas funções no gabinete de Flávio, então deputado estadual no Rio.

Mas não foi deixado ao léu.

O aviso do delegado amigo chegou aos Bolsonaro uma semana depois do primeiro turno, em 7 de outubro de 2018. Dois meses depois, quando o jornal O Estado de S. Paulo trouxe o caso à luz, Jair Bolsonaro pediu a Gustavo Bebianno, então seu homem de confiança e futuro ministro, que cuidasse do problema.

O empresário Paulo Marinho, melhor amigo de Bebianno e suplente de Flávio no Senado, marcou então uma reunião entre o filho mais velho do presidente eleito e os advogados Antonio Pitombo e Christiano Fragoso, dos escritórios Moraes Pitombo e Fragoso Advogados. A reunião aconteceu no dia 13 de dezembro.

A ideia era montar uma estratégia para circunscrever o escândalo ao nome de Queiroz. Por via das dúvidas, Fragoso reservou um defensor para cuidar de Flávio e Pitombo nomeou outro para, caso fosse preciso, tratar de Jair Bolsonaro. Já Queiroz, o pivô do problema, não poderia aparecer em público acompanhado de representantes de dois dos escritórios mais renomados e caros do Brasil.

Assim, ficou combinado que Christiano Fragoso iria orientar a defesa de Queiroz, mas indicaria um profissional menos conhecido para aparecer ao lado do assessor de Flávio Bolsonaro. Ralph Hage Vianna foi o escolhido.

Queiroz, inicialmente, estava assustado. Para acalmá-lo, o entorno de Bolsonaro passou a dar-lhe "colo, carinho e tratamento à base de mamadeira com Nescau", nas palavras de um dos advogados envolvidos na operação. Este advogado disse não saber se o trato com Queiroz envolveu dinheiro. Até onde foi informado, a "mamadeira" incluía unicamente promessas de "não abandono" e de assistência jurídica.

Assim, logo depois da reunião entre Flávio e os advogados Pitombo e Fragoso, o advogado Victor Alves, amigo de Flávio e até hoje funcionário de seu gabinete, levou Queiroz para conhecer Ralph Hage Vianna no suntuoso escritório Fragoso, no centro do Rio. A ideia era impressionar o assessor e mostrar que ele estaria "bem cuidado". Deu certo. Queiroz saiu de lá dizendo que o escritório era um "espetáculo", lembra Paulo Marinho. "Rapaz, é mármore por todo canto!", comentou.

Combinou-se que Queiroz compareceria ao interrogatório marcado pelo Ministério Público para o dia 19 de dezembro. Lá, a única coisa que ele diria seria que tudo o que ocorreu era de inteira responsabilidade sua e que nenhum Bolsonaro tinha qualquer coisa a ver com o que estavam chamando de "rachadinha". No dia 17 de dezembro, no entanto, dois dias antes da data do depoimento, Jair Bolsonaro, convencido pelo advogado Frederick Wasseff, mandou abortar a operação. Queiroz não deveria mais comparecer ao interrogatório. "Vamos resolver de outra maneira", disse o presidente eleito.

Desde então, o caso saiu da Justiça do Rio e subiu para o STF. Advogados de Flávio continuam até hoje tentando suspender a investigação e Queiroz desapareceu da face da terra. Se continua à base de mamadeira com Nescau, não se sabe.

Thaís Oyama