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Thaís Oyama


Thaís Oyama

Bolsonaro deputado emprestava dinheiro; presidente, não podia pagar perito

Michelle Bolsonaro: não eram R$ 24 mil nem R$ 40 mil, mas R$ 72 mil, segundo revista - TV Brasil/Reprodução
Michelle Bolsonaro: não eram R$ 24 mil nem R$ 40 mil, mas R$ 72 mil, segundo revista Imagem: TV Brasil/Reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

07/08/2020 11h21

Resumo da notícia

  • Revista diz que Queiroz depositou não R$ 24 mil na conta de Michelle, mas R$ 72 mil entre 2011 e 2018
  • Em 2019, Bolsonaro não podia pagar perito do caso Adélio porque, segundo assessor, sua renda tinha "caído muito"
  • A coluna apurou que o ex-ministro Gustavo Bebianno pagou a conta do perito, de R$ 30 mil

Em janeiro de 2019, a Polícia Federal ainda investigava a sanidade mental de Adélio Bispo de Oliveira, autor do atentado contra Jair Bolsonaro, mais tarde diagnosticado portador de Transtorno Delirante Persistente.

Na época, advogados do escritório Moraes Pitombo, que já havia trabalhado para o ex-capitão em outras causas, acompanhavam as diligências em Juiz de Fora e já tinham elementos para intuir que Adélio seria considerado maluco — e, portanto, inimputável.

Diante dessa perspectiva, o círculo mais próximo de Bolsonaro decidiu contratar um perito particular para participar da avaliação psiquiátrica de Adélio- além do profissional nomeado pelo juiz, as partes têm direito a indicar outro, o chamado "auxiliar técnico". Bolsonaro e sua família tinham convicção de que Adélio não havia agido sozinho, mas a mando de alguém.

Um dos advogados envolvidos no caso, então, procurou o chefe de gabinete do presidente recém-eleito, Pedro Cesar Nunes Ferreira Marques de Sousa, para apresentar-lhe o orçamento do perito particular que acompanharia o exame: R$ 30 mil.

O chefe de gabinete respondeu que Bolsonaro não tinha esse dinheiro.

"A renda dele caiu muito", afirmou.

O "major Pedro", como é conhecido, acompanha o presidente desde que ele era deputado federal.

Quando um cheque de R$ 24 mil apareceu na conta da atual primeira-dama, depositado por Fabrício Queiroz, Jair Bolsonaro alegou que se tratava do pagamento de um empréstimo que ele havia feito ao ex-assessor do filho Flávio. "Não foram 24 mil reais, foram 40 mil reais. Se o Coaf quiser retroagir um pouquinho mais vai chegar a isso", disse Bolsonaro.

O Coaf retroagiu e chegou não a R$ 40 mil, mas a R$ 72 mil. Foi essa a quantia depositada por Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro entre 2011 e 2018, conforme revelou hoje a revista Crusoé, que teve acesso à quebra de sigilo bancário de Fabrício Queiroz.

A crer na alegação inicial de Bolsonaro, de que os depósitos eram a devolução de um empréstimo, pode-se depreender que o ex-capitão não passava apertos quando era deputado federal — podia, inclusive, socorrer amigos em dificuldades.

Em janeiro de 2019, no entanto, o presidente recém-empossado não dispunha de R$ 30 mil para pagar um perito, despesa que acabou sobrando para o então ministro Gustavo Bebianno.

E ele não dispunha dessa quantia porque sua renda havia "caído muito", segundo afirmou na época o seu chefe de gabinete (o major Pedro foi procurado pela coluna, mas de acordo com o seu gabinete, ele não responde à imprensa "nem por telefone e nem por email").

A pergunta que fica no ar é: Bolsonaro empobreceu na Presidência ou enriqueceu como deputado?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama