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Thaís Oyama

A essa altura, já tanto faz se Paulo Guedes fica ou sai

Bolsonaro e o ex-Posto Ipiranga: um decide, o outro obedece -
Bolsonaro e o ex-Posto Ipiranga: um decide, o outro obedece
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

27/08/2020 10h21

O "chega pra lá" público que o presidente da República deu no seu ministro da Economia —e que teve como resposta um resignado "deixa estar, ele é assim mesmo" — evidenciou o que já se suspeitava: quem manda na pasta não é o Posto Ipiranga, mas Jair Bolsonaro, e o Posto Ipiranga parece disposto a adaptar seus princípios liberais aos desejos do chefe.

Sendo assim, a ameaça de o governo aumentar o gasto público de forma a colocar em risco o ajuste fiscal permanece na mesa com ou sem Guedes no cargo.


Bolsonaro não quis "fritar" seu ministro com o discurso de ontem em Minas Gerais.

"Não vou tirar dos pobres para dar aos paupérrimos", afirmou.

O que o presidente fez foi usar o ministro como escada para subir no palanque. O ex-capitão que defendia o fim do Bolsa Família por considerá-lo um programa destinado a transformar "pobres coitados e ignorantes" em "eleitores de cabresto do PT", agora está encantado com seu novo personagem, "Bolsonaro, o pai dos pobres".

E pai dos pobres não tira dos pobres.

Ocorre que, se quiser mesmo aumentar o valor do Bolsa Família para colocar nele a sua digital sem cortar despesas, Bolsonaro não escapará de duas medidas que prometeu jamais tomar: aumentar impostos e furar o teto de gastos, este já com muitas goteiras.

Projeções do mercado financeiro mostram que, mesmo obedecendo à regra do teto, o Brasil só voltará a ter algum superávit primário no final do próximo governo, entre 2026 e 2027.

Paulo Guedes, ao afirmar que o presidente está fazendo o seu "papel de político" quando o esculhamba, mostrou que topa vestir a fantasia de "bad cop" enquanto Bolsonaro desfila com a sua, de delegado bonzinho.

Mas nas coxias desse teatro, todo mundo sabe que decisão de gasto público é decisão política —e ela nunca esteve tão distante dos domínios do Posto Ipiranga.