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Thaís Oyama

O último desserviço de Bolsonaro à nação

A vacina anti-covid-19 é a mais nova candidata à difamação  - Handout .
A vacina anti-covid-19 é a mais nova candidata à difamação Imagem: Handout .

Colunista do UOL

03/09/2020 10h04

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As vacinas são velhas vítimas da calúnia e da difamação.

A Lancet, publicação científica britânica cujo nome vem sempre acompanhado do epíteto "uma das mais conceituadas do mundo", tem boa parte da responsabilidade nisso. Foi nela que um mal-intencionado cientista publicou em 1998 um falso estudo sugerindo a existência de uma relação entre a vacina contra o sarampo e a ocorrência de autismo em crianças.

Pela trapaça (descobriu-se mais tarde que o pesquisador havia entrado com um pedido de patente para uma vacina que concorreria com aquela que ele havia atacado), a Lancet se retratou e Andrew Wakefield, o cientista trapaceiro, perdeu o direito de exercer a medicina.

Mas tudo isso levou anos e deixou sequelas — a reputação das vacinas nunca mais foi a mesma. Volta e meia uma delas acaba engolfada por uma nova onda de fake news.

No Brasil, o fenômeno parecia não ter pegado.

No mês passado, o Datafolha mostrou que nove entre cada dez brasileiros pretendiam tomar a vacina contra a covid-19 tão logo ela fosse aprovada. Só 9% disseram que não fariam isso.

nos Estados Unidos, pesquisa feita em junho pelo Washington Post, em conjunto com a rede de TV ABC, mostrou resultado diferente. Apenas sete em cada dez americanos responderam que usariam a vacina e 27% disseram que "provavelmente não" ou "definitivamente não" a usariam.

Comparando as pesquisas, é possível também concluir que o grau de "ideologização" da vacina anti-covid-19 é maior entre americanos do que brasileiros.

Nos Estados Unidos, oito em cada dez eleitores do Partido Democrata disseram que se vacinariam. Já entre os partidários do republicano Donald Trump, a relação cai para seis em cada dez.

Aqui, o Datafolha apenas aferiu que 11% dos que aprovam o governo Bolsonaro não tomariam a vacina, contra 9% do total de entrevistados que declararam o mesmo - o que não chega a indicar uma clivagem ideológica.

Em suma, o Brasil parecia até agora relativamente imune à politização da vacina do coronavírus.

Isso, claro, até a manifestação de segunda-feira do presidente, reiterada no dia seguinte por um tuíte da sua Secretaria de Comunicação, de que "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina".

Bolsonaro "cloroquinizou" a imunização ao coronavírus antes mesmo de ela estar pronta. Mais um inigualável desserviço que o presidente presta à nação.