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Thaís Oyama

Apelo aos imbecis da internet: fiquem no bar e longe da vacina da covid-19

Olavo de Carvalho: a favor do cigarro e da terra plana. Dá para ir passear  no bar?  - 17.jan.2019 - Vivi Zanatta/Folhapress
Olavo de Carvalho: a favor do cigarro e da terra plana. Dá para ir passear no bar? Imagem: 17.jan.2019 - Vivi Zanatta/Folhapress
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

01/09/2020 10h19

Quem espalha mentiras pelas redes sociais o faz por militância, ignorância ou as duas coisas juntas.

Nos últimos dois dias, a internet foi tomada por uma aguerrida [bocejo] discussão sobre se era ou não verdadeira a fotografia publicada domingo pelo "Estadão" da praia de Ipanema lotada em meio à pandemia.

Isso porque meia dúzia de bolsonaristas, com a intenção de acusar o jornal de divulgar fake news, espalhou a falsa notícia de que a foto era antiga, anterior à crise do coronavírus. A fim de esclarecer a questão, o autor da foto teve de vir a público dar declarações, o jornal emitiu nota reafirmando a autenticidade da imagem e hordas de pessoas perderam parte do fim de semana empunhando lupas sobre os seus laptops.

O intenso debate e sua conclusão (sim, a foto foi feita no domingo, e sim, a praia de Ipanema estava fervilhando de banhistas nem aí para o coronavírus) não evitarão que, por muito tempo, muita gente continue a acreditar que o "Estadão" divulgou uma foto falsa. Na internet, o mais comum é que os desmentidos passem e as mentiras fiquem.

Um dos principais motivos a alimentar as fake news é o fato de as pessoas terem sede por informações que confirmem suas próprias ideias.

O outro é que as fake news quase sempre tornam a realidade mais "fácil" de entender. Considerar os vários fatores que fazem tanta gente desprezar os riscos de contágio em uma epidemia para poder estar com amigos e sentir um pouco de sol sobre a pele exige atividade cerebral. Bem mais simples é concluir que a "a imprensa mente". E quem há de resistir à força persuasiva da simplificação.

Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo e autor de frases como "cigarro não faz mal à saúde" e "não há indícios conclusivos para afirmar que a terra não é plana", já declarou duvidar da eficácia da vacinação infantil.

A internet, na frase lapidar de Umberto Eco, "deu voz aos imbecis" que, antes dela, se limitavam a dizer suas bobagens "numa mesa de bar e sem prejudicar a coletividade".

Não há nada que se possa fazer contra isso. Mas às vésperas do evento mais esperado do ano — a aprovação da vacina contra o coronavírus—não custa torcer para que os imbecis se atenham às mesas dos bares.