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Thaís Oyama

Foi Bolsonaro quem desprezou as redes sociais primeiro

Sara Giromini, a mais recente revoltada online: "Não reconheço Bolsonaro" -                                 REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS
Sara Giromini, a mais recente revoltada online: "Não reconheço Bolsonaro" Imagem: REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

06/10/2020 12h18

"Bolsonaro: omitir-se de dizer ao menos uma palavrinha de consolo aos seus apoiadores perseguidos pela ditadura é uma baixeza à qual nem o Lula desceu. Acorde, homem".

A mensagem foi postada ontem pelo (ex?) guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, numa provável referência aos apoiadores do presidente enquadrados no inquérito das fake news.

Até o momento, o professor de filosofia online não recebeu qualquer resposta do presidente.

Ou o homem não acordou ou está mais preocupado em dar satisfações à outra turma, o que é bem mais provável.

A indicação do nome do desembargador Kassio Marques para o STF desencadeou uma grita nas redes sociais entre bolsonaristas que consideraram ter o ex-capitão priorizado necessidades familiares, e do Centrão, em detrimento da promessa de indicar um conservador de quatro costados para a Corte.

Mas antes de as redes se rebelarem contra Bolsonaro, Bolsonaro já tinha desprezado as redes.

Auxílio emergencial relativizou peso das redes

Sobre isso, análise feita pelo instituto Ideia Big Data com dados da agência Bites traz dados reveladores.

Até abril deste ano, a curva de aprovação do presidente acompanhava no mesmo ritmo a curva de suas interações nas redes sociais - entendendo por "interações" o sucesso que Bolsonaro fazia com suas postagens junto ao público digital.

Ou seja: a popularidade de Bolsonaro no mundo real andava de mãos dadas com a sua popularidade no mundo virtual.

A partir do momento em que o governo iniciou a distribuição do auxílio emergencial, no entanto, essa dinâmica mudou: Bolsonaro passou a dar menos atenção ao Twitter, Facebook e Instagram (e, portanto, a "repercutir" menos lá), mas seus índices de aprovação aumentaram.

Mais vale aprovação na mão do que Centrão voando

O fenômeno certamente não passou despercebido pelo presidente. Polemizar e fazer balançar as redes produz barulho, mas não entrega popularidade.

Para questões de popularidade, muito melhor é distribuir dinheiro aos mais pobres e agradar ao Centrão — cujos expoentes têm forte influência em capitais do Norte e do Nordeste, de onde vem hoje quase a metade da aprovação do presidente. Em outras palavras, Bolsonaro percebeu que dá muito mais resultado gastar do que investir em proselitismo na internet.

Desprezadas e mal-amadas, abandonarão as redes o seu capitão?

A esta pergunta cabe responder com outra: se abandonarem, nos braços de quem se jogarão?

Bolsonaro pode ser um ingrato, mas, por enquanto, é o único nome à mão.