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Thaís Oyama

Em breve no TCU, mais um ministro que toma cerveja com Bolsonaro

O ministro Jorge Oliveira: "muito afeito à burocracia", na apresentação comedida de seu chefe, o presidente Bolsonaro -
O ministro Jorge Oliveira: "muito afeito à burocracia", na apresentação comedida de seu chefe, o presidente Bolsonaro
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

07/10/2020 12h26

O ministro Jorge Oliveira era o sonho de Jair Bolsonaro para a vaga de Celso de Mello no STF. Praticamente um agregado do clã Bolsonaro (seu pai, Jorge Oliveira Francisco, trabalhou com o ex-capitão por mais de duas décadas e morreu como seu chefe de gabinete em meio à campanha eleitoral de 2018), "Jorginho" é, para o presidente, 99% confiável ("100% só pai e mãe").

Jorginho aposentou-se como major da Polícia Militar. Em 2006, obteve um diploma de bacharel em Direito pelo Instituto de Educação Superior de Brasília e só em 2013 assumiu sua primeira causa como advogado. A curta carreira como defensor foi praticamente toda dedicada a quebrar galhos na Justiça para amigos militares.

Em janeiro de 2019, com a eleição de Bolsonaro, foi alçado ao posto de subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil. Seis meses depois, o presidente o promoveu a titular da Secretaria Geral da Presidência.

Na cerimônia de posse, ao apresentar o seu novo ministro, o ex-capitão foi comedido nos adjetivos. "É uma pessoa que me acompanha há dez anos. Uma pessoa afeita à burocracia", limitou-se a dizer sobre Jorginho.

Mesmo com tão parcos predicados formais, Bolsonaro via no amigo a melhor opção para o STF - ainda mais depois que a alternativa André Mendonça mostrou-se inviável. O nome do ministro da Justiça, que dispunha de melhor currículo e trânsito no tribunal que o major, ficou chamuscado na Corte por causa da revelação, feita pelo UOL, da existência de um "dossiê" contra adversários do governo fabricado bem debaixo do seu nariz.

Assim, Jorginho só não foi indicado para a vaga de Celso de Mello porque o STF mandou explícitos sinais de que considerava o currículo do ex-PM decididamente insuficiente para a cadeira. O major não recebeu mal a notícia de sua rejeição.

Em abril deste ano, ciente de suas limitações, ele mesmo havia pedido a Bolsonaro que não o nomeasse ministro da Justiça -era a primeira opção do presidente para substituir o ex-juiz Sérgio Moro.

Agora, com a vaga aberta pelo pedido de aposentadoria do presidente do Tribunal de Contas da União, José Mucio Monteiro, Bolsonaro achou o que considera ser o lugar perfeito para Jorginho. A vaga de Mucio, escolhido em 2009 pelo ex-presidente Lula, é da cota de indicações do presidente.

O TCU, órgão auxiliar do Congresso, era até há pouco tempo visto como uma "aposentadoria premiada" para amigos do poder. Mas sua importância política cresceu depois do impeachment de Dilma Rousseff, sacada da cadeira presidencial sob o argumento jurídico das pedaladas fiscais.

Pelo TCU passam todas as contas do governo.

Numa época em que se discute a manutenção do teto de gastos e "manobras" que permitam respeitá-lo sem respeitá-lo muito, cada uma das nove vagas no tribunal ganha importância estratégica para o governo.

O presidente já indicou o amigo de um amigo para a Procuradoria Geral da República. Tudo dando certo, terá em breve alguém que tome cerveja com ele também no STF e no TCU.

Quando vociferava contra o PT no plenário da Câmara, o então deputado Jair Bolsonaro chamava essa tática de aparelhamento.

Mas isso foi há muito tempo.