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Thaís Oyama

Crescem as fileiras da "direita burra"

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

12/10/2020 12h37

Jair Bolsonaro, como se sabe, não reage bem a críticas. E responde pior ainda quando elas partem de apoiadores seus. Na semana passada, o presidente xingou eleitores insatisfeitos com a indicação do desembargador Kassio Marques para o STF. Segundo Bolsonaro, eles são "fedelhos" que não entenderam nada e fazem parte da "direita burra".

As fileiras da "direita burra" estão engrossando - e incluem cada vez mais militares.

No mês passado, ao participar de uma formatura de sargentos da Marinha, no Rio, o presidente foi surpreendido por um protesto do lado de fora do salão do evento.

"Traidor!", gritavam os manifestantes — militares da reserva e pensionistas que se sentiram lesados com as novas regras sancionadas pelo ex-capitão para suas aposentadorias. Soldados, cabos, sargentos e subtenentes reclamam que elas privilegiam oficiais superiores em detrimento de suas categorias.

Graduados e praças sempre foram a base de sustentação do ex-deputado Jair Bolsonaro.

Já o alto oficialato via o parlamentar com reservas e só no último instante aderiu à sua candidatura à Presidência.

Recentemente, porém, também essa categoria passou a declarar em alto e bom som sua decepção para com o ex-capitão.

Generais da reserva que há poucos meses cerravam fileiras em torno de Bolsonaro por considerá-lo "atacado" e "perseguido" pelo STF agora manifestam publicamente seu inconformismo diante da aproximação do presidente com o Centrão e suas tentativas de blindar a si próprio e aos filhos por meio de nomeações nos tribunais e órgãos de fiscalização.

O general Paulo Chagas, que chegou a ser alvo de uma ação de busca e apreensão por críticas feitas a ministros do Supremo, é um deles. "O que vejo hoje é uma volta ao passado", diz. "Uma vitória da política de todos os tempos sobre a ameaça de moralização em que apostamos".

Em grupos de Whatsapp e reuniões do Clube Militar, oficiais da reserva já discutem "uma alternativa à Bolsonaro" em 2022.

Já cabos e soldados prometem fazer alarde em manifestações marcadas para os dias 20, 21 e 22, em Brasília, contra a lei sancionada pelo "traidor".

Enquanto Bolsonaro compra briga com seu próprio eleitorado, novos personagens se movimentam por trás das cortinas, de olho nos votos dos descontentes que o ex-capitão deixa pelo caminho.

São nomes da direita, e de burros não têm nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.