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Thaís Oyama

O general Hamilton Mourão está à direita de Bolsonaro

O general Mourão: duas vezes destituído do cargo por falar o que pensa  -
O general Mourão: duas vezes destituído do cargo por falar o que pensa
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

09/10/2020 12h22

A entrevista aconteceu na quarta-feira, mas só hoje foi parar nos "trending topics" do Twitter.

O vice-presidente Hamilton Mourão passou pelo corredor polonês do jornalista britânico Tim Sebastian, âncora do programa da Deutsche Welle, Conflict Zone, e saiu de lá um tanto atordoado pela pancadaria.

Sebastian usou de táticas variadas para emparedar o general, sendo uma delas a de forçá-lo a comentar declarações que não fez, mas que foram dadas por terceiros — como seu chefe, o presidente Bolsonaro.

Quase no final da entrevista, com Mourão já soltando fumaça pelas ventas, Sebastian citou a fala de Bolsonaro durante a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, quando o então deputado federal dedicou seu voto ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, "um herói nacional".

Depois de fazer um resumo da ficha corrida do ex-chefe do Doi Codi sob cuja gestão 502 pessoas foram torturadas, o veterano âncora mandou:

"O senhor tem uns heróis bem bons em seu governo, hein?"

Mourão, então, respondeu que não "concordava" com a tortura, mas que Ustra "era um homem de honra". E esse o trecho que balançou as redes. O jornalista britânico não precisaria ter recorrido à fala de Bolsonaro para provocar Mourão a falar de Ustra.

Em 2015, , durante o governo Dilma Rousseff, quando ocupava o prestigioso posto de Comandante Militar do Sul, o próprio Mourão organizou uma homenagem ao coronel, que havia morrido naquele ano.

A iniciativa de prestigiar o único militar reconhecido como torturador pela Justiça lhe custou o cargo: foi destituído do comando pelo então chefe do Exército, o general Eduardo Villas Bôas, e deslocado para a burocrática Secretaria de Economia e Finanças do Exército, bem longe das tropas.

Dois anos depois, em meio à crise causada pelas acusações da JBS contra o então presidente Michel Temer, Mourão defendeu publicamente a possibilidade de uma intervenção militar.

"Ou as instituições solucionam o problema político pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso", disse em palestra, gravada, para um clube maçon em Brasília.

No evento, o general disse ainda que, caso "os Poderes não consigam achar uma solução" para a crise, "chegará a hora em que teremos que impor uma solução (… ) e essa imposição não será fácil, ela trará problemas". Outra vez foi destituído do cargo por ordem de Villas Bôas e logo em seguida pediu para ir para a reserva.

Ultimamente empenhado na tarefa de "arredondar" as frases mais disparatadas do chefe - e consequentemente puxar para si a imagem de "moderado"—Mourão em muitos aspectos está à direita de Bolsonaro.

Com a diferença, de que, como ele mesmo já disse, o presidente, por ter encerrado a carreira militar no posto de capitão, "é muito mais físico do que intelectual".

Já o general Mourão estudou bastante. E quando quer, não fala o que não sabe nem o que não pensa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.