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Thaís Oyama

O general Hamilton Mourão não pretende jogar vôlei na praia

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

19/10/2020 12h53

Em se tratando do destino político de Hamilton Mourão, a única certeza que se pode ter hoje é de que ele não irá jogar vôlei no posto 6 da orla carioca quando deixar a Vice-Presidência.

A aposentadoria não está nos planos do general.

Reportagem da Folha afirma que o presidente Jair Bolsonaro não pretende fazer de Mourão seu vice de novo em 2022, mas isso o general já sabia há tempos. No ano passado, em meio à refrega pública entre o militar e Carlos Bolsonaro, o filho Zero Dois do presidente, Bolsonaro mandou recado ao vice avisando-o de que deveria "procurar outro emprego".

No segundo semestre deste ano, Mourão achou que era hora de tratar do seu futuro.

No começo de agosto, começou a fazer paradinhas sistemáticas na porta do seu gabinete para dar entrevistas, muitas vezes dizendo o exato oposto do que havia afirmado Bolsonaro.

Numa dessas falas, o general chegou a criticar políticos que trabalham de olho na reeleição. "Eu sou um crítico do instituto da reeleição. Não ficou bem. Vejo que os nossos gestores são eleitos já pensando na eleição seguinte". Seu chefe, que só pensa "na eleição seguinte", só não detestou mais a frase do que o atrevimento do vice.

O "impulsivo e rústico" versus o "sensato e diplomático"

Mais recentemente, Mourão mudou de tática.

Passou a dedicar as paradinhas para "explicar" ao microfone a última declaração escalafobética do chefe. Com isso, ganha em várias frentes: garante um espaço diário na televisão, sinaliza seu desejo de "ajudar" o presidente e, ao mesmo tempo, reforça o contraste entre o "impulsivo e rústico" Bolsonaro e o "sensato e diplomático" Mourão.

Mourão está em franca campanha eleitoral, embora ainda não tenha decidido para quê. Pode ser para o governo do Rio Grande do Sul, para desespero do ministro Ônyx Lorenzoni, que sonha com a candidatura.

Pode ser para outros postos também.

Para boa parte dos militares, um general de quatro estrelas ser vice de um ex-capitão configura quebra da ordem natural das coisas. E embora não admita, o projeto de consertar esse "equívoco" volta e meia povoa os sonhos do general, e de muitos dos seus amigos do Clube Militar. O horizonte de 2022 ainda vai clarear, e Mourão sabe esperar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.