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Thaís Oyama

Com declarações "atrevidas", Mourão vai se posicionando com 2022 no radar

O general Mourão, que jura pretender jogar peteca na praia quando seu mandato de vice acabar - ADRIANO MACHADO
O general Mourão, que jura pretender jogar peteca na praia quando seu mandato de vice acabar Imagem: ADRIANO MACHADO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

20/08/2020 05h00

Resumo da notícia

  • Vice-presidente volta a dar declarações divergentes do chefe, Jair Bolsonaro
  • Hamilton Mourão é cobiçado no RJ e RS como candidato a governador
  • Interlocutores do general apontam planos de concorrer à Presidência em 2022

Nos últimos dias, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, deu duas declarações que colidiram de frente com as posições do seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro.

Na segunda-feira, ele afirmou que, no caso da criança de 10 anos de idade que engravidou após ser repetidamente estuprada pelo tio, "o aborto é mais que necessário, é recomendado". Bolsonaro, que já disse que "enquanto for presidente, não haverá aborto no Brasil", silenciou sobre o episódio.

Duas semanas antes, o vice havia criticado publicamente políticos que trabalham de olho na reeleição.

"Eu sou um crítico do instituto da reeleição. Não ficou bem. Vejo que os nossos gestores são eleitos já pensando na eleição seguinte".

Essa segunda fala, claro, foi a que mais ardeu no ouvido de Bolsonaro —um presidente em franca campanha para esticar por mais quatro anos sua estada no Palácio do Planalto.

As declarações atrevidas do vice estimularam rumores de que ele estaria se posicionando para concorrer ao governo do Rio Grande do Sul.

Governador Mourão? Difícil

É fato que um grupo de empresários gaúchos já manifestou o desejo de lançar o nome do general para o cargo.

É fato também que o mesmo pleito o vice costuma ouvir quando vai ao Rio de Janeiro, onde tem apartamento e morou até mudar-se para Brasília, e ao Amazonas, estado em que sua mãe nasceu (ele gosta de brincar dizendo que é "meio índio. Ou melhor, cacique").

Mas governo de estado algum está no radar de Mourão.

Nos dias 5 e 6 de setembro, o general irá se reunir em Brasília com diversos representantes de seu partido. O PRTB pretende lançar nomes para concorrer à prefeitura em capitais de 18 estados brasileiros neste ano.

Ao lado do presidente da sigla, Levi Fidelix, Mourão fará vídeos e fotos com os pré-candidatos. O evento inaugurará o que pretende ser uma intensa campanha para encorpar o partido.

O PRTB não elegeu nenhum deputado em 2018. Com isso, caiu na cláusula de barreira, o que significa: nada de fundo partidário e necas de tempo de TV.

Essa situação poderá ser revertida em 2022.

Se perguntar, o general vai negar

Da parte do PRTB, Mourão candidato à presidência da República seria o guincho capaz de tirar o partido do atoleiro.

Da parte do vice, seria tudo o que ele sempre quis.

Mourão acredita que o cenário em 2022 será favorável a candidaturas de centro-direita. Isso, somado ao fato de ele ser hoje um nome nacionalmente conhecido, ter o respeito de boa parte dos militares e ótimo trânsito entre empresários, faz o general sonhar alto.

Perguntado sobre essa intenção, o vice negará até a morte -não quer criar problemas com o chefe, por enquanto.

Sobretudo, não quer ter outra vez Carlos Bolsonaro no seu calcanhar. No ano passado, desconfiado de que Mourão queria tomar o lugar de seu pai, o Zero Dois transformou a vida do general num inferno.

Mourão tem 67 anos, só. E como repetem seus amigos, não nasceu para ser o segundo.