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Thaís Oyama

Bolsonaro faz mais um ministro engolir sapo

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello: cargo indigesto -                                 CAROLINA ANTUNES
O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello: cargo indigesto Imagem: CAROLINA ANTUNES
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

21/10/2020 12h37

Faz parte do job description dos ministros de Bolsonaro o exercício de engolir sapos.

Já se expuseram a situações vexatórias para que o ex-capitão saia bem na foto de Augusto Heleno a Ônyx Lorenzoni, passando por Luiz Mandetta e Sérgio Moro (estes últimos tornados ex-ministros depois de se cansarem da prática). Agora é a vez do titular da Saúde comparecer com a sua cota de abnegação.

O que disse o general Eduardo Pazuello em videoconferência com os governadores ontem foi precisamente o que repetiu hoje o Ministério da Saúde em nota lida em tom marcial pelo seu secretário-executivo, Élcio Franco.

A diferença é que a nota do secretário empenhou-se menos em informar do que proteger a sensibilidade da ala sinofóbica dos apoiadores do presidente, que passou as últimas horas enxovalhando o ex-capitão no Twitter por causa da suposta compra da "vacina chinesa" pelo governo.

O erro de Pazuello foi ter se preocupado apenas em divulgar uma notícia - a de que o ministério da Saúde havia assinado "um compromisso de aquisição" (diferente de compra, que não ocorreu) da vacina a ser produzida pelo Instituto Butantã a partir de tecnologia chinesa, e que deverá estar disponível no mercado mais cedo do que o imunizante produzido pela britânica Astrazêneca.

O general ainda tomou o cuidado de informar que o cumprimento desse protocolo de intenções dependeria da aprovação do imunizante pela Anvisa. E que se isso acontecesse até o final do ano, a vacinação começaria em janeiro. O Butantã, ressaltou, já fornece 75% das vacinas adquiridas hoje pelo governo para proteger brasileiros contra doenças diversas.

Mas foi o general terminar sua fala para que o mundo caísse nas redes bolsonaristas condicionadas a ler apenas a primeira linha dos textos jornalísticos.

"Bolsonaro traidor" e "pelo amor de deus, presidente, não compre a vacina chinesa" deram o tom da gritaria.

Diante disso, Bolsonaro fez o de sempre. Desautorizou seu ministro e discursou para a plateia.

O Brasil "não será cobaia de ninguém" e a decisão dele é "não comprar a referida vacina".

Entende-se por "referida vacina" aquela que os bolsonaristas chamam de 'chinesa" e não a que Pazuello chamou de "vacina do Butantã" - embora, como seu viu, as duas sejam precisamente a mesma. Mas para Bolsonaro, não importa o conteúdo da seringa, basta que a embalagem não enfureça seus seguidores.

E fica para Pazuello a conta pela confusão. Mas, tudo bem, o general está lá é para isso mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.