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Thaís Oyama

Vermífugo de Marcos Pontes é a nova solução mágica de Bolsonaro

Marcos Pontes, "o astronauta": o apelido interno do ministro no Palácio do Planalto não é exatamente uma distinção  - Francisco Stuckert/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Marcos Pontes, "o astronauta": o apelido interno do ministro no Palácio do Planalto não é exatamente uma distinção Imagem: Francisco Stuckert/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

20/10/2020 10h54

Líderes populistas têm um fraco por remédios milagrosos.

Nicolás Maduro já prescreveu no Twitter sua receita de antídoto para o coronavírus — uma garrafada misturando capim-santo, gengibre, sabugueiro, pimenta-do-reino, mel e limão.

Alexander Lukashenko, o ditador de Belarus, recomendou vodca e banhos de sauna à população.

No Brasil, Jair Bolsonaro continua a liderar a seita dos adoradores da cloroquina, o remédio sem comprovação científica que até Donald Trump, ex- entusiasta da panaceia, desprezou na hora do aperto.

Agora, um vermífugo de eficácia tão comprovada quanto a cloroquina está prestes a ganhar o coração do presidente. O remédio defendido por Marcos Pontes - chamado internamente no Palácio de Planalto de "o astronauta", e neste caso menos por distinção do que por uma alegada familiaridade do ministro com o mundo da lua — foi apresentado em cerimônia no Palácio do Planalto com cuidados à altura de seus até agora desconhecidos méritos.

A atestar a eficácia do vermífugo no combate à Covid-19, o ministro apresentou em power point um gráfico decorativo, destes disponíveis em bancos de imagens, e que mostrava que alguma coisa - QUALQUER coisa—encontrava-se em queda.

O que faz alguém crer tão piamente na eficácia de medicamentos sem comprovação científica e condenar de antemão outros submetidos ao escrutínio de cientistas do mundo todo é a mesma coisa: o impulso de negar a realidade por conveniências de origens diversas.

No caso de Jair Bolsonaro, diga-se em sua defesa que o comportamento não de hoje faz parte das características fundamentais do presidente, cuja fixação pela cloroquina apenas repete fases anteriores como a do nióbio e da "pílula do câncer".

Mas a conveniência de fabular e confundir a realidade pode ter outras origens, como é bom lembrar que aconteceu no caso da notícia mentirosa que em 1998 associou as vacinas à ocorrência do autismo.

Seis anos depois de o pesquisador britânico Andrew Wakefield publicar na respeitável Lancet um estudo que relacionava a vacina contra o sarampo ao autismo infantil, descobriu-se que não apenas o estudo era falso como o cientista trapaceiro tinha interesses bastante objetivos em falseá-lo, já que pouco antes havia entrado com um pedido de patente para uma vacina concorrente daquela que havia atacado. A Lancet se desculpou publicamente, Wakefield perdeu o direito de exercer a medicina, mas a reputação das vacinas nunca mais foi a mesma.

No Brasil, a pesquisa "Global Attitudes on a COVID-19 Vaccine", realizada pela Ipsos em 27 países, mostrou que nove em cada dez brasileiros se vacinariam contra a COVID-19 caso a vacina já estivesse disponível.

Isso foi em setembro.

Será de se lamentar se, por culpa de interesses sórdidos ou imprecações antecipadas e gratuitas contra esta ou aquela marca, a próxima pesquisa identificar um aumento da resistência dos brasileiros aos imunizantes. Mesmo porque saunas e garrafadas até agora não se mostraram boas alternativas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.