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Thaís Oyama

Vacina preferida de Bolsonaro tem coração chinês

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

26/10/2020 12h08

A vacina de Oxford trabalha com insumos farmacêuticos vindos da China, afirmou o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres.

O infectologista confirmou assim a informação publicada pela Folha na semana passada de que o principal ingrediente da vacina que é a aposta do governo Bolsonaro vem do país que Bolsonaro considera suspeito.

O insumo farmacêutico, explicou Barra Torres, "é a farinha que faz o pão, é a base da vacina". E completou: "Hoje, no mundo, é quase impossível ter um produto feito 100% em um país".

De fato.

Atualmente, embora as maiores empresas farmacêuticas sejam americanas e europeias — como a Pfizer, a Merck e a Roche, por exemplo— elas dependem de uma cadeia global de suprimentos para a sua produção.

E tanto a China quando a Índia têm papel fundamental nessa cadeia.

Os dois países são hoje os maiores produtores dos Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs) - a "farinha que faz o pão".

Para produzir um fármaco, os grandes laboratórios compram o IFA e o combinam com outras substâncias. Os excipientes, por exemplo, têm a função de dar uma forma "consumível" ao medicamento - ou seja, transformá-lo em um comprimido, uma cápsula, uma pomada ou uma vacina.

Até meados da década de 90, os Estados Unidos, o Japão e países da Europa produziam juntos 90% dos IFAS do mundo. Hoje, a China sozinha é responsável por cerca de 40% desses ingredientes farmacêuticos ativos. Vem daquele país e da Índia entre 70% e 80% dos IFAs que os Estados Unidos compram atualmente.

Com a vacina de Oxford, como confirmou a Anvisa, não será diferente.

A embalagem pode ser britânica, mas o coração do imunizante é chinês.

Na quinta-feira passada, falando sobre as vacinas em teste contra a Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro afirmou: "Da China não compraremos. Não acredito que ela transmita segurança para a população pela sua origem. Esse é o pensamento nosso".

O presidente vai ter de dar uma cambalhota no seu pensamento: ou decide que imunizante nenhum presta, já que quase todos incluem insumos vindos da China, ou assume que toda vacina é boa desde que analisada e aprovada pelos órgãos competentes - não importa quem colha os louros por isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.