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Thaís Oyama

Medo de ser trucidado por boato do "fim do SUS" fez governo anular decreto

Maria do Rosário (PT-RS): governo quer "condenar à morte milhares de brasileiros" - Bruno Santos/Folhapress
Maria do Rosário (PT-RS): governo quer "condenar à morte milhares de brasileiros" Imagem: Bruno Santos/Folhapress
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

29/10/2020 12h48

O governo Bolsonaro pode não saber por que resolveu baixar o decreto do SUS, da pior forma possível e no meio de uma pandemia, mas sabe muito bem por que decidiu suspendê-lo.

A proposta — mal escrita, mal veiculada e mal compreendida—se limitava a autorizar o início de um debate sobre a participação da iniciativa privada na construção de postos de saúde e sua operação.

O gerenciamento de unidades básicas de saúde por hospitais e organizações sociais privadas não é nenhuma novidade no país. Em São Paulo, o modelo funciona há mais de quinze anos por meio da parceria entre a Fundação Albert Einstein e a prefeitura. Em Salvador, o petista Jaques Wagner foi um dos primeiros governadores a entregar a gestão de um hospital estadual a um consórcio privado.

Mesmo assim, por ignorância ou má-fé, fez-se do decreto um escarcéu.

"Bolsonaro quer privatizar o SUS", gritaram as redes sociais.

"O desmonte do SUS condenará à morte milhares de brasileiros que não podem pagar por um serviço privado", bradou a deputada Maria do Rosário (a parlamentar petista apresentou um projeto de decreto legislativo que suspende o decreto do governo — em outras palavras, Maria do Rosário propõe que todo mundo fique proibido de discutir o assunto).

Em 2014, na etapa final da campanha em que Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) disputaram a Presidência da República cabeça a cabeça, petistas espalharam nas redes a falsa notícia de que o tucano, se ganhasse, acabaria com o Bolsa Família.

Com a ajuda de disparos massivos pelo Whatsapp, a mentira se espalhou como rastilho de pólvora pelos telefones celulares. Em cidades do interior do Nordeste, kombis circulavam com megafones abertos "alertando" a população para a iminência do desastre.

A campanha petista provocou queimaduras de terceiro grau na candidatura tucana.

Ontem, a reação ao "decreto do SUS" e, sobretudo a investida de partidos da oposição no assunto, fizeram o governo sentir cheiro de queimado.

Assessores acionaram a sirene de alerta máximo no Planalto: o boato disseminado por opositores do governo teria potencial destrutivo para Bolsonaro, sobretudo entre as classes D e E, hoje o esteio do presidente candidato à reeleição.

O governo Bolsonaro já deu abundantes mostras da falta de pruridos em manipular informações e torcer verdades até que elas fiquem ao seu gosto.

Com o episódio do SUS, a oposição lembra que há muito conhece a tática.

O ex-capitão não inventou nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.