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Thaís Oyama

Bolsonaro está sendo enganado por assessores ou vive em realidade paralela

Teria sido o presidente tragado por um buraco negro? - Estúdio Rebimboca/UOL
Teria sido o presidente tragado por um buraco negro? Imagem: Estúdio Rebimboca/UOL
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

28/10/2020 10h43

Como militar, Jair Bolsonaro nunca foi afeito à disciplina.

Como aluno, vive num mundo todo próprio.

Se o assunto o interessa, é capaz de ficar horas falando ou mesmo escutando sobre ele, como aconteceu em junho do ano passado quando esteve no Japão. Seus anfitriões, sabedores do fascínio do presidente pelo nióbio, providenciaram para ele a exibição de um vídeo legendado sobre o uso do metal na produção de baterias para carros elétricos. Bolsonaro surpreendeu até mesmo assessores próximos ao ficar de olhos arregalados diante da tela por mais de uma hora.

Já se o tema não habita o limitado universo das paixões do presidente, ele simplesmente muda de assunto no meio da conversa. Na campanha eleitoral de 2018, durante uma das aulas de economia marcadas com Paulo Guedes na casa do empresário Paulo Marinho, deixou o futuro ministro falando sozinho para ver um jogo do Palmeiras na TV.

Episódio ocorrido ontem mostrou tanto o resultado das aulas cabuladas como do hábito do presidente de só fazer contato com a realidade quando ela lhe interessa.

Em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro afirmou que bancos estrangeiros estão sugerindo como opção de investimento a compra de moeda brasileira.

Virando-se para Paulo Guedes, que o acompanhava, perguntou: "As empresas lá fora estão recomendando comprar real, é isso?". E voltando-se para a sua claque, declarou satisfeito: "Então, é mais uma sinalização de que a nossa economia está dando certo".

Como até as emas do Alvorada sabem, investidores com espírito de risco costumam comprar moedas ou ações "na baixa" na expectativa de lucrar mais à frente caso os produtos se recuperem.

Assim, relatórios de bancos como o Credit Suisse e Morgan Stanley recentemente informaram clientes sobre a possibilidade de ganhos com a compra de moedas depreciadas.

O real foi uma das que mais caíram neste ano, com uma desvalorização acumulada de quase 40% em relação ao dólar.

Não é exatamente "um sinal de que a nossa economia está dando certo".

Há um mês, falando na Assembleia Geral da ONU, Bolsonaro já havia fabulado em público ao incluir em seu discurso a afirmação de que, apesar da pandemia, o investimento estrangeiro no Brasil havia aumentado. "Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo", afirmou.

O investimento estrangeiro no Brasil está em seus menores níveis na última década em termos de fluxo líquido (resultado da compra de ativos estrangeiros por residentes internos menos a compra de ativos internos por estrangeiros).

Dados do Banco Central mostram que os investimentos diretos no país ficaram 27% abaixo do que os registrados no mesmo período do ano passado e foram 28% menores do que em 2018.

A Justiça considera inimputáveis — ou isentos de responsabilidade por seus atos e, portanto, de punição— indivíduos acometidos por doença mental ou menores de 18 anos. Bolsonaro, até onde se sabe, não se encaixa em nenhuma das duas categorias.

Donde se depreende que o presidente ou se finge de louco ou está sendo enganado por seus assessores - o que não o isenta de, em ambos os casos, responder pelo que diz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.