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Thaís Oyama

Bolsonaro alterado constrange até bolsonaristas

Bolsonaro: apoiadores estarão dispostos a recolher seus cacos em caso de explosão? - CLÁUDIO MARQUES/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Bolsonaro: apoiadores estarão dispostos a recolher seus cacos em caso de explosão? Imagem: CLÁUDIO MARQUES/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

12/11/2020 11h40

Resumo da notícia

  • Comemoração do presidente sobre suspensão de vacina gera comentários negativos nas redes
  • Bolsonaro tem volume de críticas próximo ao da época da saída de Moro do governo, diz agência
  • Bravata contra os Estados Unidos deixou até mesmo apoiadores próximos estupefatos
  • Investigação sobre Flavio Bolsonaro e cenário econômico em meio à covid-19 apontam 2021 difícil

Bolsonaro em estado normal já é um elemento instável.

Bolsonaro alterado é uma bomba ambulante.

Desestabilizado sobretudo pela denúncia do filho Flávio à Justiça, Bolsonaro reagiu como de praxe: num misto de diversionismo e desespero, abriu a boca e o saco de disparates.

Desta vez, porém, as declarações do presidente passaram da conta até na avaliação de apoiadores e aliados.

No Palácio, a ameaça de abandonar "a saliva para usar a pólvora" contra os Estados Unidos, por exemplo, deixou perplexos mesmo assessores próximos do ex-capitão, que ontem diziam não ter ideia de onde ele havia "tirado essa maluquice".

Nas redes sociais, as críticas ao presidente atingiram nos últimos dias níveis só vistos quando da saída de Sergio Moro do governo, em abril.

Naquela ocasião, a AP Exata, agência de monitoramento digital, identificou 66% de menções negativas ao ex-capitão nas principais plataformas de rede social.

Ontem, essas menções chegaram a 62%.

A declaração que mais rendeu prejuízos a Bolsonaro foi a da postagem de terça-feira no Facebook. Nela, o presidente comemorou uma suposta vitória sobre o governador tucano de São Paulo, João Doria, diante da notícia da suspensão dos testes, já retomados, da vacina Coronavac.

A afirmação em terceira pessoa ("Bolsonaro ganhou mais uma") escancarou o caráter eleitoreiro da discussão sobre o imunizante de patente chinesa e deixou sem munição os bolsonaristas que diziam ser Doria o responsável pela politização da vacina contra o coronavírus.

Na crise de popularidade provocada pela saída de Moro, Bolsonaro levou dois meses para voltar a ter um dia em que as menções positivas nas redes superaram as negativas.

A avaliação de especialistas digitais é de que a crise da vacina pode demorar mais ainda a passar.

A militância bolsonarista está com dificuldade de blindar Bolsonaro, observa a AP. Nas postagens, apoiadores reclamam das "provocações desnecessárias que alimentam a mídia" e pedem moderação ao presidente.

Não vai ser fácil.

Hoje, o jornal "O Globo" revelou que uma nova prova apresentada na denúncia contra Flávio Bolsonaro reforça a acusação de que ele, quando deputado estadual, desviou para o próprio bolso salários de assessores para com eles adquirir dois apartamentos no bairro de Copacabana, no Rio.

A Justiça avança na direção dos calcanhares do primogênito do presidente.

O ministro Paulo Guedes diz temer a volta da hiperinflação.

O auxílio emergencial termina em dezembro, e seu fim pode derrubar a popularidade do ex-capitão junto às classes D e E.

Bolsonaro não terá um 2021 fácil.

Resta saber como o presidente reagirá às novas pressões e quão dispostos estarão seus apoiadores para recolher seus cacos em caso de explosão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.