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Thaís Oyama

A conta chegou para Bolsonaro, que agora pressiona por acordo com a Pfizer

O presidente Jair Bolsonaro: hora do cavalo-de-pau -                                 MARCOS CORRêA/DIVULGAçãO
O presidente Jair Bolsonaro: hora do cavalo-de-pau Imagem: MARCOS CORRêA/DIVULGAçãO
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

09/12/2020 09h46

O presidente Jair Bolsonaro fez pouco da Covid-19.

"Gripezinha".

Desdenhou da segunda onda da pandemia.

"Conversinha".

Chamou de "maricas" quem não enfrenta o coronavírus "de peito aberto" —leia-se: sem usar máscaras, sem respeitar o isolamento social e com muita fé na cloroquina.

Apoiadores ecoaram cada palavra e cada gargalhada do ex-capitão.

Mas então veio a vacina.

E a piada começou a perder a graça.

A sensação de que o governo não se preparou para a vacinação em massa dos brasileiros passou a aumentar a cada fala do general Eduardo Pazuello - aquele que era especialista em logística, mas que só agora deu para se lembrar que uma campanha de imunização requer, por exemplo, a compra de seringas.

As imagens dos felizardos britânicos recebendo ontem a vacina da Pfizer também calaram fundo. Em breve, os brasileiros assistirão americanos, europeus e vizinhos da América Latina juntarem-se aos ingleses na fila de vacinação (Peru, Chile, México, Equador, Costa Rica e Panamá há meses já fecharam acordos de compra com a Pfizer).

Mas o golpe mais doído para Bolsonaro veio na segunda-feira, quando ele ouviu o inimigo João Dória anunciar que irá vacinar os paulistas a partir do dia 25 de janeiro doa a quem doer. O fato de o governador de São Paulo ainda ter se oferecido para fornecer a Coronavac a outros estados da federação só ajudou a realçar a inação do governo federal e azedar o humor do presidente. A vacina de patente chinesa começou a ser produzida nesta semana pelo Instituto Butantan, em São Paulo.

Diante disso, Bolsonaro partiu para um cavalo-de-pau.

Ele agora quer que o Ministério da Saúde feche o quanto antes um acordo de compra da vacina da Pfizer - aquela mesma cuja aquisição era inviável por exigir armazenamento a -70º C, segundo havia dito o governo há menos de duas semanas.

Mas assinar um acordo de última hora com a Pfizer, em prazo exíguo e ainda a bom preço não são as únicas missões recebidas pelo Ministério da Saúde.

A pasta está sendo pressionada também para obter da farmacêutica o compromisso de fornecer ao governo federal ao menos um lote "simbólico" de doses até janeiro -o suficiente para produzir imagens bonitas de idosos e enfermeiros sendo vacinados.

E assim deixar claro para o país que, se na corrida das vacinas os brasileiros até agora ficaram para trás, o presidente Bolsonaro não.