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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em seu discurso, Lula enviou recado estratégico aos militares

O ex-presidente Lula: armas para as "nossas Forças Armadas" -  Edilson Dantas / Agência O Globo
O ex-presidente Lula: armas para as "nossas Forças Armadas" Imagem: Edilson Dantas / Agência O Globo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

11/03/2021 10h55

A cadeia não enferrujou Lula.

No seu primeiro discurso na condição de elegível, o ex-presidente deixou claro que a retórica continua a ser seu forte.

Na fala de 80 minutos, agradeceu a aliados, espinafrou adversários, omitiu sem nenhum pudor seus podres e os de seu partido e enalteceu a si próprio apresentando-se como a liderança que o país não tem, sobretudo ao falar da importância do combate ao coronavírus pela vacina, palavra que repetiu 19 vezes.

Lula falou para o Brasil e para o mundo.

A pretexto de agradecer solidariedades recebidas, citou suas intimidades e relações com ao menos dez lideranças globais — da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, ao papa Francisco— na clara intenção de contrapor sua imagem de "líder respeitado" com a de um presidente isolado que transforma progressivamente o Brasil num pária internacional.

Mas três dos acenos feitos pelo petista deram a pista de quais setores ele considera particularmente estratégicos para levar a cabo a sua determinação, apenas ainda não assumida, de concorrer à Presidência da República pela sexta vez.

O primeiro aceno foi dirigido ao empresariado. Disse Lula: "Eu era chamado de conciliador quando presidia. Quantas reuniões fazia com os empresários? Dizia: 'O que vocês querem? Então, vamos construir juntos (...) Não tenham medo de mim".

Em seu discurso, Lula pôde se dar ao luxo de salpicar uma ou outra fala de cor nacionalista sobre o petróleo e o preço da gasolina, e até jurar que não ficará "refém do Deus mercado, que só quer ganhar dinheiro não importa como". O "mercado" sabe bem que o palanque não é o lugar em que se anunciam decisões de política econômica para valer.

O segundo aceno estratégico de Lula foi para o fundamental bloco do centrão, sem o qual, no Brasil, poucos presidentes se elegem e nenhum governa. "Eu gostaria que no Congresso Nacional só tivesse gente boa, gente de esquerda, gente progressista, mas não é assim. O povo elegeu quem ele quis eleger. Nós temos que conversar com quem está lá para ver se a gente conserta esse país".

Quem "está lá" é Arthur Lira e sua turma, dotada de extensa ficha criminal, ampla penetração nos rincões do Brasil e um inabalável compromisso com os, digamos, princípios da velha política, aquela que entrega a mercadoria na data combinada pelo preço acertado.

O terceiro e mais importante aceno estratégico de Lula foi dedicado aos militares. "O presidente não é eleito para falar bobagem e fake news. Ele não é eleito para incentivar a compra de armas. Quem está precisando de armas são as nossas Forças Armadas".

A cenoura balançada diante do nariz dos militares na forma daquilo que é uma das principais e perenes reivindicações das Forças— recursos e equipamentos— não é o mais importante na frase de Lula. O pronome possessivo que ele usou é.

Ao se referir às "nossas Forças Armadas", Lula mostra que não esqueceu o tuíte publicado pelo ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas-Bôas, às vésperas do julgamento do seu habeas corpus no STF em 2018, e que muitos acreditam ter contribuído para deixá-lo fora do páreo naquelas eleições.

Por enquanto, o petista pode dormir tranquilo.

Com exceção de alguns generais da reserva, a reação dos militares à ressurreição política do petista pelas mãos do ministro do STF, Edson Fachin, ficou bem aquém do que esperava, por exemplo, o Palácio do Planalto.

Para decepção de bolsonaristas de alto coturno, a turma do "cabo e do soldado", por enquanto, está com as barbas de molho.