PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jair Bolsonaro é o capitão que não quis ir à guerra

Jair Bolsonaro: na hora H e no dia D, fuga da trincheira  -  Reprodução/Instagram
Jair Bolsonaro: na hora H e no dia D, fuga da trincheira Imagem: Reprodução/Instagram
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

08/03/2021 11h09

"Já colapsamos. Socorro. Preciso de ajuda. Algum estado pode auxiliar com vagas de UTI?".

O pedido desesperado feito pelo secretário de Saúde de Mato Grosso a colegas de outros estados, noticiado pela Folha no domingo, não teve resposta.

Goiás, Mato Grosso do Sul e Tocantins, três dos estados vizinhos, estão igualmente sem vagas.

O Amazonas, ao norte, todo mundo sabe, foi o primeiro a sucumbir: com os sistemas de saúde público e privado esgotados desde o final do ano passado, sofreu colapsos no serviço funerário e no suprimento de oxigênio para os hospitais - o que fez com que, em janeiro, o número de valas abertas por dia em Manaus para receber os mortos pela covid-19 superasse os 200, e a falta de cilindros de oxigênio matasse, em dois dias, 31 doentes por asfixia.

Hoje, a exemplo do que ocorreu lá, Santa Catarina, sem leitos, luta para conseguir "exportar" pacientes que agonizam nas filas de espera. Outros estados seguem o mesmo caminho: nesta segunda-feira, São Paulo está com 80% das vagas de UTI de sua capital ocupadas.

É difícil precisar quanto da tragédia que vive o Brasil pode ser debitada à ineficiência do governo federal no combate à pandemia e ao boicote sistemático perpetrado por Jair Bolsonaro contra as medidas para reduzir a disseminação do vírus.

Mas é fácil imaginar como seria o cenário contrário.

Logo no início da pandemia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil e ex-capitão do Exército, convocaria um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão no qual, em tom firme e grave, diria: "Brasileiros, estamos em guerra".

Afirmaria que, a partir daquele momento, todos os esforços do seu governo, todo o empenho dos seus ministros e toda a força da Presidência estariam voltados para o combate ao coronavírus.

Valendo-se da mística da ética e eficiência militar, anunciaria que, naquele instante, ordenava o engajamento total e irrestrito das Forças Armadas no extermínio do inimigo, o coronavírus, e contava com o apoio da população para juntar-se aos combatentes na luta.

A partir de então, mensagens sobre a importância do uso de máscaras, lavagem de mãos e distanciamento social estampariam outdoors, seriam veiculadas na TV, nas redes sociais e se fariam ouvir nos alto-falantes dos milhares de carros que percorreriam os rincões do país.

O Exército, a Marinha e a Aeronáutica auxiliariam o Ministério da Saúde na distribuição e aplicação de testes para detecção da doença, monitoramento de contaminados e aquisição, distribuição e aplicação de vacinas.

Caminhoneiros, influenciadores digitais e policiais de todo o país (apenas alguns dos segmentos de alta capilaridade em que o presidente tem apoios) adeririam à campanha e aos esforços para que brasileiros não morressem vitimados pelo vírus ou pela ignorância.

Bolsonaro, como presidente da República e chefe supremo das Forças, tudo supervisionaria e estimularia, um general à frente do campo de batalha.

Mas o ex-capitão não fez nada disso.

Restou ao Brasil contar os mortos da guerra que ele se recusou a lutar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL