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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pesquisa mostra que Bolsonaro virou refém do auxílio emergencial

Jair Bolsonaro: risco é de o candidato atropelar o presidente e o presidente atropelar o Brasil  - Reprodução/TV Cultura
Jair Bolsonaro: risco é de o candidato atropelar o presidente e o presidente atropelar o Brasil Imagem: Reprodução/TV Cultura
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

17/03/2021 11h08Atualizada em 17/03/2021 19h01

Pesquisa Datafolha divulgada hoje mostrou que o presidente Jair Bolsonaro mantém seus níveis de aprovação em 30%, mas apresenta vetor de popularidade em baixa e de rejeição em alta, sobretudo no Nordeste. Lá o índice de aversão ao ex-capitão chega a espetaculares 49%.

É fato que o aumento da rejeição ao presidente no Nordeste é um reflexo direto da suspensão do pagamento do auxílio emergencial em dezembro.

Da mesma forma, é esperado e certo que a retomada do pagamento do benefício, prevista para o mês que vem, venha refrescar a imagem do ex-capitão na área.

Sendo o Nordeste não só a região mais pobre do país como também a segunda mais populosa e o segundo maior colégio eleitoral depois do Sudeste, o que acontece lá é determinante para o plano de reeleição de Bolsonaro.

Levando em conta o que é o principal, senão o único, tema das preocupações presidenciais, o pior cenário é o de a popularidade do ex-capitão despencar para um patamar abaixo de 20%.

O número demarca a zona vermelha de Bolsonaro, a partir da qual não apenas seu projeto de continuar presidente passa a correr sério risco como mesmo a sua ida para o segundo turno torna-se uma dúvida.

Dado que a retomada da economia depende fundamentalmente da melhora da pandemia, e portanto do sucesso da campanha de vacinação, e dado que esta claudica, hoje o maior pilar de sustentação de Bolsonaro é o auxílio emergencial, para o qual o governo já se dispôs a gastar 44 bilhões de reais fora do teto de gastos nos próximos quatro meses.

Presidentes em véspera de reeleição tendem a comportamentos previsíveis.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso, em plena campanha, foi pego pelo terremoto mundial provocado pela moratória da Rússia. Na contramão do que lhe aconselharam assessores, o tucano optou por segurar o câmbio e só reajustá-lo no segundo mandato. Pela decisão, o Brasil pagou caro e FHC jogou cinzas sobre a própria cabeça mais tarde.

A petista Dilma Rousseff, no final do seu primeiro mandato e de olho no segundo, elevou o gasto público a patamares nunca antes alcançados. Só em propaganda (notadamente do programa "Minha Casa, Minha Vida"), atirou pelo ralo 2,3 bilhões de reais em 2013. Ao plantar gastança, dívida pública, desonerações e empréstimos baratos, a petista colheu uma recessão inédita, amargada pelos brasileiros durante os anos que se seguiram à sua reeleição, em 2014.

A nova rodada do auxílio emergencial está prevista para durar quatro meses. Também para Bolsonaro, esse prazo pode ser insuficiente. Mas se o "emergencial" se tornar permanente à custa de cortes de despesas que o façam caber nos limites do teto de gastos, o efeito disso poderá ser positivo não apenas para as ambições eleitorais do presidente como para o Brasil e os brasileiros.

Se, no entanto, a renovação do benefício se der de qualquer forma e a qualquer preço, fará aumentar a já alta desconfiança em relação à política econômica do governo, o que fará subir o dólar, aumentarem os preços e, consequentemente, a pressão do mercado para que o Banco Central suba os juros, derrubando as chances de crescimento da economia.

Presidentes às vésperas da eleição gastam o que têm e o que não têm. Torrar dinheiro sem dó a fim de garantir a permanência no poder na base do "depois a gente vê o que faz" é um clássico da política.

Daqui para frente, portanto, é preciso torcer para que Bolsonaro incorpore o senso de responsabilidade que nunca demonstrou ter - nem que seja o suficiente para que o candidato não atropele o presidente e o presidente não destrua o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL