PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sem dispor de generais bolsonaristas, Bolsonaro não fará o "seu" Exército

Bolsonaro demite comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica mas ainda não sabe quem colocar no lugar - Akemi Nitahara /Agência Brasil
Bolsonaro demite comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica mas ainda não sabe quem colocar no lugar Imagem: Akemi Nitahara /Agência Brasil
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

31/03/2021 10h10Atualizada em 31/03/2021 12h19

Assessores próximos de Jair Bolsonaro reconhecem: não há hoje, na ativa, nenhum general "bolsonarista", ou ao menos "bolsonarista-raiz" — entendendo-se pela expressão alguém disposto a ir com o presidente ao limite da inconstitucionalidade.

Bolsonaro está distante dos generais e os generais querem distância do seu governo. E não apenas pelo fato de discordarem de ideias do ex-capitão como a de decretar o estado de defesa ou de sítio, ou ainda de usar o Exército para impor pressões de qualquer ordem sobre o Supremo Tribunal Federal. Entre os militares e Bolsonaro inexiste, inclusive, familiaridade.

Bolsonaro deixou o Exército há mais de 30 anos. Saiu como oficial de artilharia que passou boa parte da carreira em grupos de paraquedismo. Como não galgou postos de comando nem foi professor de ninguém, deixou de estabelecer laços valorizados na caserna, como os que ligam os instrutores aos seus cadetes ao longo de toda a vida.

Exemplo dessa ausência de familiaridade entre Bolsonaro e o alto oficialato militar é o fato de o presidente não ter proximidade com quaisquer dos cotados para ocupar as vagas dos três comandantes das Forças demitidos ontem.

Dos nomes postos à mesa até o momento, o do almirante Garnier Santos, cogitado para o comando da Marinha, é o único com que Bolsonaro tem alguma proximidade — e apenas porque o almirante, secretário-geral do Ministério da Defesa, participou da comitiva que acompanhou o ex-capitão na viagem ao Oriente Médio, em outubro de 2019.

Com o general Marco Antônio Freire Gomes, hoje favorito para o comando do Exército, Bolsonaro nunca teve qualquer relação além de encontros protocolares durante visitas ao Nordeste — o general é o comandante militar da região. Freire Gomes foi cadete do general Augusto Heleno quando o hoje ministro-chefe do GSI era instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Foi também secretário-executivo do general Sérgio Etchegoyen, que ocupou o cargo de Heleno no governo Michel Temer.

A ideia, portanto, de que a inédita demissão dos três comandantes das Forças fará com que Bolsonaro tenha militares "alinhados" com ele pode até ser um desejo do presidente, mas não será um fato.

Braga Netto, o novo ministro da Defesa, conhece os motivos pelos quais seu antecessor, Fernando Azevedo e Silva, foi demitido. E sabe também por que foi colocado em seu lugar. Fará, portanto, o que for possível para encontrar perfis de comandantes próximos ao que almeja o seu chefe, mas é improvável que consiga produzir milagres.

O Exército, quem quer que seja seu comandante, não será de Bolsonaro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL