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Thaís Oyama

REPORTAGEM

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Os quatro pontos da estratégia de Pazuello, treinado no Palácio, para a CPI

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

03/05/2021 12h16

O general Eduardo Pazuello — que está sendo treinado dentro do Palácio do Planalto para falar à CPI da Covid - irá ao Congresso nesta quarta-feira para defender em primeiro lugar o governo federal, e só depois a sua própria gestão à frente do Ministério da Saúde.

Para isso, o general dividiu em quatro etapas os argumentos que pretende apresentar aos parlamentares. Nelas, Pazuello responsabiliza organismos internacionais de saúde, governadores estaduais, o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso Nacional e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelas falhas no combate à pandemia.

A primeira etapa da estratégia traçada pelo general diz respeito à demora na decretação do estado da pandemia pela Organização Mundial da Saúde, no início de 2020, e ao fato de os governadores e prefeitos terem permitido a realização das festas de Carnaval naquele ano.

A segunda etapa foca na decisão do STF, de abril de 2020, de garantir aos estados e municípios autonomia para decidir sobre medidas como o isolamento social e sua intensidade. O general repetirá o discurso do presidente Jair Bolsonaro de que essa resolução "impediu" que o governo federal colocasse em marcha um plano nacional de combate à covid-19.

Na terceira etapa pensada pelo general, ele discorrerá sobre as ações que o governo federal tomou para mitigar os efeitos da pandemia, como a adoção do auxílio emergencial, a compra de vacinas e o envio de recursos para os estados. Nessa fase, Pazuello criticará a "desmobilização", por parte de governos estaduais, de ações que, dirá, deveriam ser mantidas, como a criação de mais leitos de UTIs.

Na quarta e última etapa da estratégia desenhada pelo general, ele afirmará que defendeu "enfaticamente" o adiamento das eleições municipais de 2020 para 2021, no que foi vencido por decisão do Congresso, de marcar o pleito para novembro.

A decisão de manter a realização das eleições municipais em 2020 teve o apoio do ministro Luís Roberto Barroso, integrante do STF e também presidente do TSE. Aliados do governo se dividiram sobre a questão — na época da votação no Congresso, o então líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), liberou a bancada alegando que o assunto não dizia respeito ao governo.

O general Pazuello dirá que a primeira variante do coronavírus surgiu poucas semanas depois do segundo turno das eleições, sugerindo que os comícios e aglomerações que elas provocaram foram responsáveis pela disseminação da segunda onda da doença no país.

O ministro, que há uma semana foi visto passeando sem máscara por um shopping center de Manaus, não é conhecido pela eloquência nem pela habilidade retórica. Sua dificuldade em encadear de forma fluente um raciocínio lógico já fez com que fosse comparado por ex-colegas do Planalto à ex-presidente Dilma Rousseff.

Desde a semana passada, assessores palacianos estão treinando e municiando Pazuello para a apresentação de quarta-feira. Inicialmente incumbido de coordenar a tarefa, o general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, não participa do treinamento. As relações entre ele e Pazuello estão estremecidas desde a demissão do ex-ministro. Pazuello acredita que foi Ramos quem o "vendeu" para o Centrão - o bloco de partidos liderado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, que pediu sua cabeça.