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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Convocação de Pazuello à CPI irrita Exército e faz Clube Militar estrilar

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

29/04/2021 11h52

O presidente do Clube Militar, o general de divisão da reserva Eduardo José Barbosa, publicou ontem texto em que defende a aplicação, pelo Poder Executivo, do famigerado artigo 142 da Constituição - aquele que fala do uso das Forças Armadas para garantir "a lei e a ordem" e que é brandido pelo presidente Jair Bolsonaro cada vez que ele se sente atropelado pelo Supremo Tribunal Federal.

No texto, o general Barbosa aponta os coturnos na direção do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional, da imprensa, do ministro Gilmar Mendes, do ex-presidente Lula e dos senadores Omar Aziz (PSD) e Renan Calheiros (MDB) — presidente e relator da CPI da Covid. Nenhum dos personagens foi nominalmente citado no artigo, intitulado "O poder das trevas no Brasil". Nele, Eduardo José Barbosa diz ainda que as instituições criticadas se "acovardaram" e agora querem culpar o presidente Jair Bolsonaro "por aquilo que não o deixaram fazer".

O texto do general precisa ser lido em perspectiva.

O Clube Militar, bunker dos oficiais da reserva do Exército, é o braço político e a voz mais estridente da Força. Lá, os generais, livres das amarras da ativa, vociferam à vontade contra quem e o que bem entendem. O general Hamilton Mourão presidia o Clube quando aceitou ser candidato a vice na chapa de Bolsonaro, época em que chamava de herói o coronel Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI e primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador.

Mas se o texto do general Barbosa está um ou dois tons acima do que adotariam mesmo alguns de seus mais proeminentes colegas da reserva, é certo que, em alguns pontos, ele reflete precisamente o que pensam, inclusive, oficiais da ativa.

Como diz um deles: "É intolerável ouvir alguém como o Renan querendo dar lição de moral e convocando um general fardado a depor".

A CPI da Covid marcou para a próxima quarta-feira o depoimento do ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que continua na ativa e agora está alocado na Secretaria Geral do Exército, em Brasília.

Não que Pazuello ande muito prestigiado nas fileiras da Força. O desfile sem máscara que ele protagonizou num shopping de Manaus no domingo passado irritou inclusive o Alto Comando do Exército (quem assistiu a cerimônia de posse do novo comandante, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, pôde constatar como os integrantes da instituição levam ao pé da letra as recomendações do manual anti-covid: à exceção do ministro Braga Netto, que tirou a máscara por um momento ao discursar, ninguém ficou sem ela nenhum segundo).

A exibição de displicência de Pazuello no shopping, portanto, foi vista como merecedora até de reprimenda pública por parte do comando da Força, o que não aconteceu.

Mas uma coisa é um general sofrer críticas internas de seus pares e outra bem diferente é ser "constrangido publicamente por gente como o Renan", como diz um oficial da ativa no governo.

O texto do general Barbosa pode chamar a atenção pela estridência, mas contém um recado compartilhado por generais, da ativa e de pijama: vai ter barulho se a CPI da Covid, ao mirar Pazuello, acertar o Exército.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL