PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Falas de Pazuello, Ramos e Guedes provam: Bolsonaro fez do governo hospício

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

28/04/2021 11h06

Logo no início da pandemia, em março de 2020, um grupo de advogados de Brasília encaminhou representação ao Ministério Público pedindo que o presidente Jair Bolsonaro fosse submetido a avaliação psiquiátrica.

Bolsonaro havia acabado de voltar de uma viagem aos Estados Unidos onde deu entrevista dizendo que a pandemia era "muito mais uma fantasia que a grande mídia propaga pelo mundo todo". Na volta, quando já se sabia que onze membros da sua comitiva haviam testado positivo para o coronavírus, ele desceu a rampa do Palácio do Planalto para juntar-se a um grupo de apoiadores, cujas mãos apertou despreocupado.

Na representação ao MP, o grupo de advogados dizia que o comportamento do presidente configurava "considerável grau de desorientação e confusão psíquica".

De lá para cá, Bolsonaro fez coisa muito pior, mas elas passaram a assustar cada vez menos. O extraordinário, de tanto se repetir, acaba virando paisagem.

Nos últimos dias, porém, saltou aos olhos um fenômeno novo envolvendo o comportamento do presidente.

Auxiliares próximos a ele passaram a demonstrar comportamentos preocupantemente embaraçosos.

No domingo passado, o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, decidiu passear em um shopping sem máscara e, cobrado, fez graça perguntando onde se comprava uma. Pazuello é o alvo número um da recém-instalada CPI que Bolsonaro tanto teme, e que vai investigar as omissões de seu governo no combate à pandemia.

Ontem, outro general importante do Planalto, Luiz Eduardo Ramos, afirmou em um encontro que tomou vacina "escondido" por recear levar bronca de seu superior. E também porque, afinal de contas, tem "uma mulher linda e dois netos maravilhosos" e pretende "viver, pô". Horas depois de dizer que tomou vacina escondido, Ramos postou mensagem negando ter dito que tomou vacina escondido.

Na mesma noite, num evento gravado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, acusou a China, o maior parceiro comercial do país, de ter "inventado" o coronavírus. Em sua fala, o comandante da economia pontuou ainda que a vacina fabricada pelo país responsável por 95% dos imunizantes e insumos dos quais depende o Brasil não é lá essas coisas (a "dos americanos" seria melhor). O ministro disse também que a Saúde está quebrada inclusive porque tem gente que quer viver "100, 120, 130 anos" (quanto egoísmo).

Como só loucos rasgam dinheiro, na segunda-feira, o Banco Central anunciou que os investidores estrangeiros retiraram 2,1 bilhões de dólares do mercado de ações e títulos públicos do Brasil, quebrando um ciclo de nove meses de resultados positivos no setor.

Os parâmetros de sanidade reinantes no Palácio do Planalto emanam do chefe. O chefe é Bolsonaro. Antes de quebrar o Brasil, portanto, Bolsonaro consumará o trabalho que iniciou, o de transformar o governo num grande manicômio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL