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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sonho frustrado levou Pazuello à logística, pela qual nunca foi apaixonado

O ex-ministro da Saúde, general Pazuello: logística foi solução, não escolha - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
O ex-ministro da Saúde, general Pazuello: logística foi solução, não escolha Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

04/05/2021 11h24

O general Eduardo Pazuello se orgulha de ser um "Comandos", ou "Gorro Preto". Significa que fez os prestigiados cursos de Ações de Comandos (CAC) e Forças Especiais, voltados para missões de captura, resgate ou eliminação de alvos em conflitos armados, e ao fim dos quais menos de um terço dos alunos consegue se formar. Pazuello é também um "guerreiro de selva", como no jargão do Exército se chamam os militares que passaram pelo sofrido curso ministrado pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva, o CIGS, em Manaus, reputado internacionalmente por sua qualidade e rigor. O general Pazuello ainda atingiu o que é, em sua categoria de oficial de intendência, o ápice da carreira: carrega três estrelas nos ombros.

Em suma, ao menos no Exército, Eduardo Pazuello não é pouca porcaria.

Ocorre que, quando jovem, o que Pazuello queria era ser da Cavalaria, uma das divisões, ou "armas", que definem a especialização dos oficiais da Força.

A Cavalaria esteve muito prestigiada no Exército entre as décadas de 70 e 90 (Pazuello é da turma de 1984), em grande parte por influência de generais como o ex-presidente João Baptista Figueiredo, que ostentava com orgulho o distintivo das duas lanças cruzadas, símbolo da arma.

Mas na Academia das Agulhas Negras (Aman), onde se formam os oficiais do Exército, são os melhores alunos os que têm o direito de escolher primeiro a arma à que querem pertencer. E Pazuello não era um aluno exatamente brilhante. Quando chegou sua vez de optar, a Cavalaria já estava "fechada", e foi apenas por isso que ele abraçou o serviço de intendência, voltado para tarefas administrativas ou logísticas. Esperava dessa forma poder servir num quartel de Cavalaria, ainda que fosse na qualidade de responsável pela administração de insumos e mantimentos, por exemplo.

Em outras palavras, Pazuello nunca foi apaixonado pelo exercício de atividades de apoio, nas quais se encaixa a logística. E se isso explica alguma coisa, não exime e nem desculpa o ex-ministro pela ruinosa gestão à frente do Ministério da Saúde, sobre a qual agora se furta de responder presencialmente à CPI da Covid.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL