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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Para Bolsonaro, a Copa América é a cloroquina de chuteiras

O presidente Jair Bolsonaro: vento e ideias fixas - Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro: vento e ideias fixas Imagem: Adriano Machado/Reuters
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

10/06/2021 12h54

Sediar a Copa América neste momento é mais arriscado do que fazer a Libertadores no Brasil?

É, dizem epidemiologistas.

No caso da competição entre clubes da América do Sul, os jogadores vêm para o Brasil e voltam para casa logo depois da partida. É fácil manter todo mundo numa "bolha".

Já na Copa América, as seleções passam, no mínimo, duas semanas no país. E não há como impedir no período a livre circulação dos visitantes, que não serão poucos.

Se cada delegação trouxer 65 pessoas (o máximo permitido), chegará a 585 o número de indivíduos vindos de países diferentes circulando por ao menos 14 dias no Brasil. "Com isso, o país se arrisca não só a importar variantes do coronavírus como também de exportar as cepas existentes aqui", afirma o epidemiologista Pedro Hallal, ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do Epicovid-19. "E se há mais turistas que isso entrando diária e livremente no país, isso não deveria acontecer. Um erro não justifica o outro", afirma.

Por saber ou intuir os perigos que envolvem a realização do campeonato no país, a maior parte dos brasileiros é contra a iniciativa, como já mostraram pesquisas. Pelos mesmos motivos, acrescidos do receio de arranhar a própria imagem, a maioria dos patrocinadores do evento decidiu não fazer campanhas no Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, abraçou-se à ideia de sediar o campeonato que Argentina e Colômbia recusaram com a mesma fúria que dedica às suas outras obsessões.

A interlocutores, o presidente tem explicado da seguinte maneira o raciocínio tortuoso por trás de sua decisão: sediar a Copa América será a "prova" de que aquele Brasil "pintado pela CPI e pela TV Globo" é uma mentira, dado que é o único país a "oferecer segurança" para um evento desse porte.

Não faz qualquer sentido?

Tem mais.

O presidente tem dito também que a realização do campeonato transmitirá à população uma "imagem de normalidade" do país, em substituição ao clima de "histeria" reinante.

Mas de que adiantaria "transmitir uma imagem de normalidade" em meio à total anormalidade de uma pandemia?

Perde tempo quem procura lógica na cabeça de Bolsonaro.

Tudo que existe lá é vento e ideias fixas. A Copa América é a cloroquina de chuteiras, o negacionismo dentro das quatro linhas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL