PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Salve-se quem puder: o vento da sorte sopra para Bolsonaro, o furioso

Jair Bolsonaro: sem enfermidade ou doença mental diagnosticada - Reprodução/TV Band Vale
Jair Bolsonaro: sem enfermidade ou doença mental diagnosticada Imagem: Reprodução/TV Band Vale
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

22/06/2021 10h21

A lei qualifica como indivíduos "incapazes" e, portanto, passíveis de serem representados por um tutor, os menores de 16 anos; os que não podem exprimir sua vontade; e os que, por doença ou deficiência mental, "não têm o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil".

O presidente Jair Bolsonaro é maior de 16 anos, consegue exprimir seus desejos e não tem enfermidade nem deficiência mental diagnosticadas. Embora episódios recentes indiquem que falta ao presidente equilíbrio para o convívio em sociedade, ainda não se provou que ele careça também de "discernimento para a prática dos atos da vida civil" - ou seja, não é certo que Bolsonaro precise de tutela para tomar decisões como comprar, vender e assinar contratos.

Ocorre que está em vista um teste crucial para o ex-capitão.

A alta das commodities caiu do céu, e o Brasil, com mais da metade de suas exportações concentrada nesses produtos, pegou o que economistas chamam de "vento de cauda" - aquele que sopra na direção do voo e dá um belo e bem-vindo impulso ao avião.

No caso do Brasil, o impulso já pode ser sentido pelo aumento da expectativa de crescimento do PIB para mais de 5% neste ano e a perspectiva de fechar 2021 com um superávit que não dava as caras desde 2007. Juntando-se a isso a malvada mãozinha da inflação, o governo pode entrar em 2022 com um espaço de até 130 bilhões de reais no teto de gastos.

O que o governo fará com essa folga é uma incógnita e uma temeridade. Pode aproveitar o respiro para insistir nas reformas, investir em infraestrutura e no aumento da produtividade — em outras palavras, pode optar por usar o dinheiro para reconstruir o país e pavimentar o seu futuro.

Mas pode também decidir torrar tudo no populismo das balas e figurinhas destinadas a adoçar um ano eleitoral, distribuindo reajustes salariais a rodo, por exemplo, como já tem cogitado fazer.

O vento da sorte não vai soprar para sempre e a questão é saber se o governo pretende aproveitá-lo ou transformá-lo numa maldição.

A decisão, salve-se quem puder, está em última instância nas mãos de Jair Bolsonaro - ainda um presidente capaz, ao menos aos olhos da lei.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL