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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que os "órfãos de Moro" podem salvar a terceira via

Sergio Moro: o ex-juiz está fora do páreo, mas seus eleitores não - Allan Calisto/Agência F8/Folhapress
Sergio Moro: o ex-juiz está fora do páreo, mas seus eleitores não Imagem: Allan Calisto/Agência F8/Folhapress
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

17/06/2021 11h06

De onde menos se esperava que saísse algo daí é que não saiu nada mesmo.

A primeira reunião presencial de partidos em busca da "terceira via" reuniu caciques de sete legendas para um almoço em Brasília que produziu não mais que frases protocolares e promessas de coisa nenhuma.

Com o propósito de buscar uma alternativa à polarização Lula-Bolsonaro, o evento lembrou um daqueles brinquedos de parque de diversão em que motoristas de carrinhos bate-bate ficam girando a esmo na pista, brincando de trombar uns contra os outros sem sair do quadrado.

Difícil crer que o multiforme MDB irá se juntar ao fraturado DEM para, junto com o sempre cindido PSDB e os nanicos Cidadania, Podemos e PV, tirar um único nome que a todos contente. Mais fácil Jesus descer à terra, diriam os crentes.

Mas há ao menos uma visão mais otimista pela qual a terceira via fica de pé, e ela não passa pela lógica dos partidos.

Mesmo porque aquilo que no passado recente fazia uma sigla menor (sem dinheiro e sem votos) aderir a outra maior (com fundo eleitoral gordo e um candidato competitivo) nunca foi a afinidade programática, mas muito mais a perspectiva de o partido menor lucrar com a cessão, ao partido maior, de seu tempo de TV - hoje um ativo sobejamente desvalorizado.

Na atual circunstância, portanto, dizem especialistas em pesquisa eleitoral, a lógica do apoio da pessoa física pode fazer mais sentido que a lógica da união entre partidos.

Em outras palavras: um candidato —seja ele do DEM, PSDB, PTB ou MDB— que largue de um patamar de 5% de intenção de votos precisaria crescer de 10 a 15 pontos percentuais para ter chances de disputar com o presidente Jair Bolsonaro a segunda vaga no segundo turno (a primeira hoje já é de Lula).

Nesse cenário, a conquista do apoio de nomes estratégicos —e não a união de partidos— pode fazer a diferença.

João Amoêdo, por exemplo —ex-presidente do Novo, ex-candidato a presidente da República em 2018 e, por enquanto, ex-candidato a candidato a presidente em 2022— tem modestos, mas consistentes, 3% de intenção de votos nas pesquisas.

E Sergio Moro, mesmo fora do jogo, continua batendo em 10% em diversos levantamentos.

Os "órfãos de Moro" pertencem majoritariamente às classes A e B e habitam as regiões metropolitanas. São lavajatistas que Bolsonaro deixou a ver navios e antipetistas convictos. Como fiéis da balança, podem ser mais decisivos que acordos entre caciques de partidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL