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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com live, Bolsonaro quis motivar militância desanimada com Centrão

Jair Bolsonaro na live de ontem: propaganda do governo e muxoxos de autocomiseração - Reprodução
Jair Bolsonaro na live de ontem: propaganda do governo e muxoxos de autocomiseração Imagem: Reprodução
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

30/07/2021 10h44

Jair Bolsonaro já superou muitas expectativas, e sempre para pior.

A live de ontem — em forma, conteúdo e acabamento — lembrou um daqueles documentários de baixo orçamento em que entrevistados com desequilíbrios psíquicos relatam em dublagem descompassada suas experiências de abdução por extraterrestres.

Bolsonaro, o presidente da República do Brasil, foi o protagonista do triste show, encenado dentro da biblioteca do Palácio da Alvorada e tendo por claque uma dúzia de assessores e três ministros de Estado, sendo dois generais de quatro estrelas.

A precariedade do espetáculo e a ausência das prometidas provas que mostrariam a ocorrência de fraudes nas eleições passadas constrangeram até a plateia do Palácio (o general Augusto Heleno ficou boa parte do tempo com os olhos baixos, voltados para a tela do seu celular), mas o alvo do discurso presidencial era outro.

A dois dias da manifestação de apoio ao governo marcada para domingo, Bolsonaro pretendeu sacudir sua militância, parte dela envergonhada e sem munição para responder à recente rendição do Mito à "velha política".

Foi para esse público que o presidente desfiou 2 horas e 49 minutos de propaganda das virtudes de seu governo, balbuciou muxoxos de autocomiseração pelo massacre do "sistema" e apresentou mentiras deslavadas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas.

O presidente pode padecer de falta de decoro intelectual — ou, em outras palavras, ser bronco e obtuso — mas tem instinto de oportunidade e sabe que o discurso falacioso da "luta por eleições limpas" pode ser a boia de salvação para bolsonaristas que se sentiram largados ao mar com a nomeação do líder do Centrão, Ciro Nogueira, para o coração do governo.

Monitoramento da AP Exata mostra que, uma hora depois do início da live de ontem, as menções positivas ao presidente nas redes sociais caíram 4 pontos —de 37% para 33%. Na manhã de hoje, porém, Bolsonaro já havia retomado seus índices, com menções positivas atingindo 40%. Segundo a consultoria, essa recuperação contou com uma forte ação na madrugada de "perfis de interferência", ou robôs. A hashtag mais disseminada no momento conclama apoiadores para a manifestação de domingo ( #dia01VaiSerGigante).

Bolsonaro precisa dar uma demonstração de força e animar seu combalido auditório. Sabe que, sem ele, dificilmente conseguirá se equilibrar no patamar dos 20% de aprovação em que se encontra hoje, e dos quais depende para chegar ao segundo turno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL