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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como o jeitoso Ciro Nogueira convenceu Bolsonaro a usar máscara (e tirá-la)

Ciro Nogueira: um "político profissional" no coração do Planalto  - Isac Nóbrega/PR
Ciro Nogueira: um "político profissional" no coração do Planalto Imagem: Isac Nóbrega/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

27/07/2021 11h05Atualizada em 27/07/2021 14h49

Aliados de Ciro Nogueira garantem que foi o futuro ministro da Casa Civil quem convenceu o presidente Jair Bolsonaro a usar máscara na pandemia - algo que ele raramente fazia até o início do ano e que agora, vez ou outra, concede.

Contam esses aliados que Nogueira, ao ouvir Bolsonaro criticar o uso do acessório, fez-lhe a seguinte pergunta:

"Presidente, o senhor não acha que se 90% dos brasileiros estão usando máscaras e o senhor não, pode parecer que o senhor está chamando 90% dos brasileiros de burros?".

E indo direto ao ponto, completou: "Eleitoralmente, isso pode ser ruim". Bolsonaro fez cara de quem captou a mensagem.

O pragmático presidente do PP, Ciro Nogueira, vem sendo descrito nos círculos igualmente pragmáticos de Brasília como o primeiro "político profissional" a adentrar o Palácio do Planalto.

Do ponto de vista formal, outros o precederam, claro. Ocorre que Onyx Lorenzoni, por exemplo, o dócil "coringa" de Bolsonaro, não é reconhecido como "profissional" por parte de seus pares, mas como alguém que fez carreira "atacando" a política (lembrando que o futuro ministro do Emprego e da Previdência notabilizou-se por defender as "dez medidas de combate à corrupção" propostas pelo Ministério Público Federal).

Da mesma forma, a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL), apadrinhada do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), é deputada de primeiro mandato; e Fábio Faria, o ministro das Comunicações a caminho do PP, embora considerado hábil e "promissor", é ainda muito jovem.

Quando profissionais da política falam em "político profissional" estão se referindo a alguém que, como Ciro Nogueira (duas denúncias, três inquéritos e codinome "Cerrado" nas planilhas da Odebrecht, segundo o acusa o Ministério Público) tem, entre outras coisas: autoridade para escolher quem em sua sigla vai embolsar dinheiro do fundo partidário; poder para influenciar a distribuição de cargos no governo e de emendas no Congresso; musculatura para conversar e fechar acordos com raposas como Valdemar Costa Neto (PL) e caciques como Gilberto Kassab (PSD).

Desde a ascensão de Arthur Lira à presidência da Câmara, Bolsonaro já tinha se rendido aos métodos e práticas do Centrão.

A entrada de um dos principais líderes do bloco no coração do governo só acrescenta um toque "nobiliárquico" a um casamento, que, de resto, estava escrito nas estrelas, dado que o presidente agora se lembra, e afirma, que sempre foi Centrão.

Ciro Nogueira, que convenceu Bolsonaro a usar uma máscara, agora o força a tirar outra. Não se pode dizer que não fez nada pelo Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL