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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O dilema do comandante Paulo Sérgio será em breve o dilema do Exército

O comandante Paulo Sérgio: discurso dúbio -
O comandante Paulo Sérgio: discurso dúbio
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

26/08/2021 11h36

O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, fez um discurso dúbio ontem na cerimônia do Dia do Soldado no Quartel General do Exército, em Brasília.

Ao lado do presidente Jair Bolsonaro, que chegou mudo e saiu calado, o comandante pesou, mediu e azeitou cada palavra de seu discurso de modo que elas se amoldassem tanto à Constituição quanto aos ouvidos do "comandante supremo das Forças Armadas", como o general se referiu a Bolsonaro.

Ninguém, nem mesmo Bolsonaro, discordará de que o comandante do Exército deve se posicionar em "defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem", como disse Paulo Sérgio. Tampouco soará controversa a afirmação de que o comandante da força terrestre anseia pela "tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento do país".

Dada a situação da pátria, porém, a menção à palavra "estabilidade" foi o que mais chamou atenção no escrutínio que se fez do discurso do general.

Quem anseia por estabilidade reconhece a vigência do seu contrário e, nesse caso, quem seria hoje o fator de instabilidade no país, na opinião do comandante?

Bolsonaro? Não necessariamente.

O Alto Comando do Exército, o colegiado de generais quatro estrelas que Paulo Sérgio chefia, quer distância do presidente.

Esses generais — comandantes de área e, portanto, de tropas — são terminantemente contra qualquer projeto golpista e, se dependesse de grande parte deles, há muito o general Paulo Sérgio já teria pedido o boné para não ter de cumprir certas ordens do presidente.

Se há algo, porém, que une Bolsonaro a essa cúpula do Exército é a convicção de que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) vêm errando em suas decisões ou extrapolando seus limites constitucionais —os casos da anulação das condenações do ex-presidente Lula na Lava Jato e as prisões do deputado Daniel Silveira e do ex-deputado Roberto Jefferson são os exemplos mais frequentemente citados pelos militares.

Bolsonaro já ameaçou mais de uma vez desobedecer ordens que venham da Corte. Na mesma linha, especialistas como o ex-ministro da Defesa Raul Jungman preveem, no cenário mais pessimista, uma colisão entre o Executivo e o STF no caso, por exemplo, de um governador adversário do presidente solicitar a ação das Forças Armadas para garantia da lei e da ordem (o STF autorizaria a ação, mas o presidente da República, o único que pode ordenar sua execução, não o faria).

No desfecho de todas essas situações estará o Exército e, na ponta do Exército, estará o general Paulo Sérgio, a quem cabe a última palavra nas decisões da Força.

A instituição e seu comandante têm tentado manter distância de Bolsonaro e da política, mas Bolsonaro e a política podem forçar tanto o Exército quanto seu comandante a ter de se posicionar em breve, e sem dubiedades.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL