PUBLICIDADE
Topo

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido
Seu cadastro foi concluído!
reinaldo-azevedo

Reinaldo Azevedo

mauricio-stycer

Mauricio Stycer

josias-de-souza

Josias de Souza

jamil-chade

Jamil Chade

Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Teto solar" faz BC dar recado duro a governo; mercado prevê juros a 12% 

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

03/11/2021 11h35

Até a semana passada, o céu parecia surpreendentemente azul.

Nem a alta da inflação e nem a subida do dólar vinham sendo suficientes para derrubar o ânimo dos investidores.

Com a publicação dos dados fiscais de setembro, a previsão era de um 2022 muito razoável.

Entre as boas notícias anunciadas pelo Banco Central e o Tesouro Nacional estavam o ótimo resultado obtido desde o início do ano por estados e municípios, que acumularam até setembro o maior superávit primário em trinta anos; a redução do déficit primário do governo federal no período; e, como consequência dos dois fatores, a melhora do resultado do setor público, que saiu do vermelho da pandemia para um superávit de R$ 14 bilhões neste ano.

Os pontos de exclamação nos boletins que circularam entre investidores nos últimos dias ilustravam o otimismo dos analistas.

Mas os mesmos boletins já alertavam para o que poderia estragar o céu de brigadeiro: a incerteza gerada pelas sinalizações do governo Bolsonaro em relação ao orçamento de 2022 e o seu compromisso com o ajuste fiscal.

Até sexta-feira, muitos consideravam que essas sinalizações podiam não significar o pior —a disposição do presidente e sua equipe econômica de promover um aumento permanente e sem lastro da despesa. Talvez fossem apenas fruto de (mais) um problema de comunicação do governo.

Não eram. No sábado, a declaração de Bolsonaro de que tem um temeroso "plano B" para o caso de a PEC dos Precatórios não ser aprovada e a possibilidade de que esse plano passe por heterodoxias como a decretação de estado de calamidade deixaram claro que o governo está disposto a se jogar no poço da irresponsabilidade fiscal se este for o preço da reeleição do ex-capitão.

Diante disso, a alegria do pobre durou pouco.

Ata do Copom publicada nesta manhã diz que "questionamentos relevantes em relação ao futuro do arcabouço fiscal atual" resultaram em "elevação dos prêmios de risco" e "das expectativas de inflação", o que implica "maior probabilidade para cenários alternativos que considerem taxas neutras de juros mais elevadas".

Em outras palavras, o que o Banco Central disse foi que o governo está metendo os pés pelas mãos e isso vai levar a um aumento brutal dos juros.

O mercado já aposta numa elevação da Selic para 12% ao ano — lembrando que cada ponto a mais na taxa básica de juros representa um impacto na dívida pública de R$ 35 bilhões a 40 bilhões.

Um experiente analista de mercado diz que os agentes financeiros aceitariam resignados um aumento temporário da despesa. Mas não reagirão da mesma forma diante da percepção de que o furo no no teto de gastos —agora cinicamente chamado por aliados do governo de "teto solar", dado que desliza ao sabor dos elementos— será muito maior que os R$ 30 bilhões sugeridos e tem como propósito viabilizar barganhas políticas com vistas à eleição.

"Com suas ações, o governo está conseguindo jogar na lata de lixo a recuperação fiscal deste ano", diz o analista.

Feliz 2023 a todos.