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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com ida ao PL, Bolsonaro outra vez usa truque de perder fingindo que ganhou

Bolsonaro e Valdemar: narrativa da "vitória" agora é de que "o PL vai fazer tudo o que o que o presidente  quiser" - Foto: Isac Nóbrega/PR
Bolsonaro e Valdemar: narrativa da "vitória" agora é de que "o PL vai fazer tudo o que o que o presidente quiser" Imagem: Foto: Isac Nóbrega/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

24/11/2021 10h51Atualizada em 26/11/2021 20h00

Com que então o presidente Jair Bolsonaro acertou sua ida para o PL.

Ontem, o partido de Valdemar Costa Neto anunciou que a filiação do presidente será oficializada na próxima terça-feira. Era para ser nesta semana, mas discordâncias sobre quem fica com o quê na partilha do poder adiaram o aperto de mãos.

Agora, a negociação se concretizou porque, segundo disseram assessores do presidente ao colunista Lauro Jardim, o "PL fará o que Bolsonaro quiser".

Bolsonaro é especialista em trombetear batalhas, perdê-las e sair delas aos farrapos se proclamando vencedor.

Em maio, chamou sua tropa para derrubar o sistema eleitoral. "Sem voto impresso não tem eleição em 2022", chegou a dizer. A tropa obedeceu ao chamado do capitão, bradou junto com ele que as urnas eletrônicas não prestavam e emocionou-se com os tanques enfumaçados que o presidente pôs para desfilar na Esplanada. Quando o Congresso enterrou a ideia, Bolsonaro esperneou? Longe disso. Na verdade, disse o ex-capitão, ele é que saiu ganhando, porque todo o barulho fez com que o ministro Luís Roberto Barroso resolvesse colocar o Exército para fiscalizar a votação. Aí, sim.

No feriado da Independência, o moinho de vento da vez era o STF. Em discurso feito na avenida Paulista, o presidente disse que não mais iria cumprir decisões judiciais do ministro Alexandre de Moraes.

"A paciência do nosso povo já se esgotou, ele (Moraes) tem tempo ainda de pedir o seu boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais". Para surpresa do "nosso povo", Moraes não apenas ficou onde estava como, dois dias depois, recebeu um misterioso e conciliatório telefonema de Bolsonaro que, depois disso, nunca mais xingou o ministro.

Significa que ele saiu derrotado do episódio? De forma alguma. Bolsonaro sabe o que faz, disseminaram seus aliados. É preciso aguardar para saber a estratégia que está por trás do aparente recuo. Quem comprou a versão continua esperando sentado.

Agora o "outsider' da política, aquele que vinha para derrubar o sistema, ingressa no partido de um prócer do Centrão — ex-usuário de tornozeleira eletrônica, mensaleiro preso e condenado e ainda por cima ex-apoiador do governo Lula. Mas na narrativa bolsonarista, o ex-capitão saiu vitorioso outra vez. Travou um braço-de-ferro com o cacique partidário e ganhou. "O PL fará o que Bolsonaro quiser."

Vida de apoiador de Bolsonaro não é fácil, como se viu no fim de semana passado, quando o Enem incluiu na prova uma conhecida música de Zé Ramalho falando da bovina docilidade dos ignorantes incapazes de questionar seus dirigentes. Diante da provocação galhofeira no teste que, segundo o presidente, teria a "cara do governo", restou aos homenageados fingir que não era com eles.

Bolsonaro vai para o PL de Valdemar, o gado continuará pastando feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL