PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Lula está jogando os militares no colo de Bolsonaro", diz general

Para militares, Lula agiu como cabo eleitoral de Bolsonaro com declaração sobre Nicarágua -                                 RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA E CAROLINA ANTUNES/PR
Para militares, Lula agiu como cabo eleitoral de Bolsonaro com declaração sobre Nicarágua Imagem: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA E CAROLINA ANTUNES/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

26/11/2021 11h29

Uma entrevista do ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino a um site petista e as recentes declarações do ex-presidente Lula comparando o ditador da Nicarágua Daniel Ortega à primeira-ministra da Alemanha Angela Merkel acenderam a luz vermelha no radar dos generais que não engolem a candidatura do petista.

Em entrevista intitulada "O que fazer com os militares", dada ao site Opera Mundi há duas semanas, Genoino defendeu a supressão da "tutela militar sobre o Estado". Para isso, afirmou, "vai ter que haver uma luta política que diminua ou barre a reação dos militares (..) O que não podemos é permitir que essas instituições sigam como estão".

Entre outras medidas práticas, o ex-presidente do PT pregou a eliminação do artigo 142 da Constituição, que outorga às Forças Armadas a responsabilidade pela "defesa da Pátria, garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem".

De acordo com um importante general da reserva com interlocução no Alto Comando do Exército, a cúpula da Força encarou a entrevista de Genoino como uma indicação da "volta do radicalismo petista".

O mesmo general afirmou ainda considerar um "deboche" a fala de Lula de que não via nada de extraordinário na perenização de Daniel Ortega no comando da Nicarágua. "Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e o Daniel Ortega não?", perguntou o petista, desprezando o fato de que o primeiro governa uma ditadura e a segunda uma democracia.

"O Lula está jogando os militares no colo de Bolsonaro", afirmou o general.

Logo depois de ser tornado elegível por decisão do Supremo, em abril deste ano, Lula enviou emissários para sondar os ânimos dos militares em relação à sua candidatura à Presidência. O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim e o senador Jorge Viana (PT-AC) foram alguns dos escalados para a missão.

O importante general com interlocução junto ao Alto Comando do Exército foi um dos abordados por enviados do ex-presidente. Ele conta a resposta que deu: "Não há como virar para os militares e dizer que aquele cidadão que patrocinou a maior estrutura de corrupção já vista e pôs no governo uma presidente que afundou o país na pior crise econômica agora vai salvar o Brasil".

Para o general, a candidatura do ex-juiz Sergio Moro não parece, ao menos por ora, uma alternativa à polarização Lula-Bolsonaro. Isso porque, do ponto de vista ideológico, Moro "não representa a antítese ao discurso de Lula, como representa Bolsonaro".

O militar ressalvou que os debates entre os candidatos ainda não começaram e as cartas não estão sobre a mesa, mas disse temer que, ao final, seja preciso "escolher entre o ruim e o pior".