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Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O economista M.L. conta como é pesar 160 quilos (parte 1)

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Imagem: iStock
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

03/05/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição de segunda-feira (2) da newsletter de Thaís Oyama.

Bem-sucedido economista de Goiânia, M.L., 31 anos, fala que a gordura lhe trouxe uma sequência de paixões não correspondidas na juventude e uma permanente sensação de inadequação ao longo da vida, além de algumas cadeiras quebradas — ele se acostumou a sentar-se apoiando o peso do corpo na ponta dos pés para evitar incidentes que, diz, já lhe causaram constrangimento e vergonha. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

"Meu sonho é caber numa roupa legal"

"Gordo dificilmente é gordo por igual. Quando você é muito gordo, você é meio desconsertado. Por exemplo: às vezes, as coxas são mais grossas que o quadril. Então, a calça serve na perna, mas sobra em cima. A camisa fecha no peito, mas não fecha na cintura, porque a parte do quadril é mais larga que a do peito, como no meu caso.

Eu sempre tive esse problema de quadril, o que me valeu o apelido de quadrúpede na escola. Isso era terrível para mim.

O gordo sempre procura a aceitação das pessoas e tenta compensar a gordura com algumas habilidades (...)

Hoje eu sou bem-sucedido e tenho dinheiro, mas não consigo fazer coisas bestas, mas que pra mim seriam muito importantes, como, por exemplo, caber em uma roupa legal da Hugo Boss.

Querer muito fazer uma coisa, tentar de tudo pra conseguir e fracassar e fracassar de novo é muito frustrante. Esse sentimento persegue todo obeso.

Eu já fiz todos os tipos de dieta e fui pra academia várias vezes. Numa das últimas vezes, quebrei o aparelho de supino por causa do meu peso.

A hora que eu suspendi a barra, a emenda da solda arrebentou, a barra soltou e eu fui pra trás com tudo. Caí de costas e fiquei com uma lesão na lombar.

Mas o pior de tudo foi a vergonha. A academia estava lotada. Saí olhando pro meu pé, só pensando em nunca mais voltar lá. Essa foi terrível para mim.

As pessoas associam gordura a fracasso. Eu sou reconhecido pelo meu trabalho e volta e meia sou convidado a dar palestras [ele trabalha como consultor financeiro especializado em day trade]. Mas quando chego no lugar, vejo as caras de decepção.

Quando as pessoas pensam em um cara de sucesso, o que elas imaginam? Um cara magro, alinhado, bacana. Aí chega uma pessoa obesa. É incongruente.

Eu sei disso porque consegui ser magro por oito meses. A aceitação é totalmente diferente. É por isso que às vezes eu me escondo dos meus clientes (...)

Nos oito meses em que eu fui magro, fechei hiper contratos, contratos muito importantes, contratos que eu penso que talvez não teria fechado se não estivesse magro. As pessoas da minha área olham para um gordo e pensam: "Uma hora ele vai falhar".

"A pior coisa, para gordo, é cadeira de braço"

O gordo, aonde ele vai, automaticamente analisa o ambiente para ver como são as cadeiras. Se forem de plástico, tem de colocar uma em cima da outra para reforçar e não quebrar, o que é um constrangimento.

Se forem pequenas, tem de juntar duas, para sentar as duas bandas. Agora, a pior coisa para gordo é cadeira de braço. Você corre o risco de entalar, fica espremido lá dentro e a parte lateral da perna fica saltando para fora do vão lateral, uma cena ridícula de se ver. Você fica totalmente desconcertado.

Um dia, fui atender um cliente que queria me contratar para fazer a consultoria financeira. Aí, chegando nesse cliente, sentei na cadeira do jeito que eu sempre faço. Olha o tamanho das minhas panturrilhas. Isso é porque, quando eu me sento, automaticamente, coloco todo o peso do meu corpo na ponta dos pés para não forçar a cadeira.

Só que a cadeira do cliente era uma cadeira muito boa, muito luxuosa e confortável, estofada, com encosto e tal. E, sem perceber, eu fui relaxando. A conversa foi fluindo, eu fui me empolgando, o cliente também. De repente, "crac", a cadeira quebrou.

Eu firmei o pé e consegui não cair, mas a cadeira foi para o chão. A situação foi terrível para mim. Acabamos fechando o contrato, mas eu acho que isso só aconteceu porque àquela altura já estávamos no fim da conversa.

Acredito que se eu tivesse quebrado a cadeira logo no início, o cliente não teria fechado. Alguém que quebra uma cadeira porque é gordo demais perde a credibilidade. "O cara é desleixado, não cuida do próprio corpo, vai cuidar do meu dinheiro?" (...)

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