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Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Nascimento", cirurgia e vida (social e sexual) de uma mulher trans

Cena no filme "A Garota Dinamarquesa" (2015), que conta a história da pintora Lili Elbe, uma das primeiras pessoas a passar por cirurgia de readequação sexual, em 1931 - Divulgação
Cena no filme "A Garota Dinamarquesa" (2015), que conta a história da pintora Lili Elbe, uma das primeiras pessoas a passar por cirurgia de readequação sexual, em 1931 Imagem: Divulgação
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

17/05/2022 04h00

Estes são trechos da versão online da edição de segunda-feira (16) da newsletter de Thaís Oyama.

A pedagoga e pesquisadora Ariadne Ribeiro foi a paciente número 20 do programa de cirurgia para readequação sexual do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ela conta na primeira parte dessa newsletter como a avó a ajudou a descobrir quem era, descreve como se relacionava com os clientes na fase em que se prostituiu e relata detalhes da cirurgia em que substituiu por uma vagina o pênis que, num momento de desespero na adolescência, ela tentou amputar numa banheira. Hoje, aos 41 anos, Ariadne é doutoranda pela Unifesp e se orgulha de ser a mulher trans com o cargo mais alto na ONU, o de oficial do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

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"Disse à minha avó: seu eu soubesse como mudar, eu mudaria"

(...)

"Minha mãe diz que quando eu tinha dois anos ela já notava que eu era muito feminina. Os parentes comentavam. Quando comecei a ir à escola, aos 7 anos, era reconhecida como o "viadinho". Aos 13 anos, o ambiente em casa estava insuportável e fui morar com a minha avó, uma das pessoas que eu mais amei na vida.

(...)

Um dia minha avó me pegou depilando as pernas e não gostou: "Por que você está fazendo isso? Todo mundo já pega no seu pé, vão implicar mais ainda".

Eu disse que não iria mostrar pra ninguém, que aquilo era para mim e que iria usar calça comprida. "Mas você vai passar calor", ela disse. Eu respondi que não tinha importância, que não gostava de ter pelos.

Aí ela começou a desconfiar que eu estava tomando hormônios. Falou: "Assim não dá, precisamos ir no médico e ver o que está acontecendo".

"Todos falavam dos meus trejeitos, mas na hora faziam fila para transar comigo"

A minha primeira relação sexual foi um abuso. Depois eu passei a ter relações com primos e amigos do meu irmão. Todos falavam dos meus trejeitos, mas na hora faziam fila para transar comigo. Eu não sentia prazer físico, mas esses meninos eram heterossexuais, gostavam de mulher e enxergavam em mim uma mulher. Isso, ser tratada como mulher, é que me dava prazer.

Comecei a frequentar lugares LGBT. Frequentava o Massivo, a Disco Fever, era da noite. Passei a ter amigos. Foi o que me salvou.

Foi o que me salvou também no dia em que minha avó foi pra Santos fazer uma cirurgia e não voltou. Eu fiquei sem ninguém.

Meus tios ficaram com a casa da minha avó e tudo o que havia lá. Se não fosse por um amigo da noite, teria ficado na rua. Estava também sem emprego e rompida com a minha mãe. Então, aos 18 anos, comecei a me prostituir.

(...)

Eu ainda não havia feito a cirurgia. Quando contava que tinha um órgão sexual masculino, alguns clientes se assustavam, mas nenhum desistia. Eu deixava claro: "Não quero que você me toque nessa parte". Cheguei a sair agredida de hotel por causa de clientes que queriam ver, tocar o que eu não queria mostrar.

(...) Olhar no espelho e me ver com uma vagina foi uma das melhores sensações que eu tive na vida. Era como se eu estivesse realmente livre.

Na minha cirurgia tiveram de usar a alça do intestino para recobrir o canal vaginal — na genitália eu não tinha pele. Quando eu tinha 16 anos, tentei me mutilar. Minha avó tinha saído e eu estava desesperada. Pensava: "Não vou ficar com isso. Não vou viver o resto da minha vida com essa coisa me mostrando que eu sou o que eu não sou".

Fui para o banheiro. Enchi a banheira de água e entrei, sabia que iria sangrar muito. Só que, quando eu fui passando a tesoura, olhar para aquele sangue me fez ter uma queda de pressão e eu desmaiei. Minha avó chegou e me viu na banheira, toda ensanguentada e com uma tesoura do lado. No hospital, suturaram, mas não fizeram a reconstrução. Então, quando fiz a cirurgia, não tinha pele suficiente lá para recobrir o canal vaginal.

Depois que você é operada, tem de ficar com um dilatador por 30 dias, para que o canal não feche. É como se fosse um pênis de silicone. Mais tarde, tem de usar diariamente. Durante algum tempo foi incômodo. Mas depois de descobrir que o dilatador era capaz de me fazer gozar, passei a fazer masturbação e não dilatação.

A primeira vez que eu gozei na vida foi depois da cirurgia. Quando era criança, nunca me masturbei porque detestava a ideia de ter um pênis [continua na próxima newsletter].

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