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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Em 'motociata' em SP, Bolsonaro mente sobre vacinado não transmitir covid

Juliana Arreguy

Do UOL, em São Paulo

12/06/2021 17h48

Em discurso feito a apoiadores na tarde de hoje (12), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a distorcer um relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) para colocar em dúvida a quantidade de mortes por covid-19 no Brasil. Durante a fala, após "motociata" em São Paulo, ele também mentiu ao declarar que pessoas vacinadas não transmitem o vírus.

As alegações, que também incluem a defesa de medicações ineficazes contra o coronavírus, são frequentemente mencionadas por Bolsonaro e já foram desmentidas pelo UOL Confere anteriormente. No caso do TCU, o próprio Tribunal declarou em nota, na noite da última quinta (10), que "não questionou o número de mortos por covid em nenhum dos seus relatórios".

Veja a checagem feita sobre o discurso de hoje de Bolsonaro:

Pessoas vacinadas transmitem o vírus

Eu disse para o ministro da Saúde que estude a possibilidade, levando em conta a ciência, se podemos ou não sugerir a não obrigatoriedade de máscara para quem já contraiu o vírus ou já foi vacinado. Quem porventura for contra essa proposta é porque não acredita na ciência. Vacinado não tem como transmitir o vírus.
Presidente Jair Bolsonaro em manifestação

Quem já tomou a vacina ainda deve utilizar máscaras para conter o coronavírus. De acordo com especialistas, embora os imunizantes reduzam a chance de contrair o vírus, as pessoas vacinadas ainda podem transmitir a covid-19.

Um estudo do IHME (Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde), da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, já indicou que mesmo com a vacinação apenas o uso de máscaras e o distanciamento social podem frear o coronavírus.

Relatório do TCU não menciona indícios de supernotificação

É bastante objetivo que o critério usado para governadores buscar recursos do governo era o número de óbitos por covid. Houve sim, ao que tudo indica, segundo o relatório não conclusivo do TCU, a supernotificação de casos de covid.
Presidente Jair Bolsonaro em manifestação

O acórdão do TCU afirma que 44,9% dos recursos repassados pela União aos estados tiveram como critério a taxa de incidência de covid-19 por 100 mil habitantes. Embora tenha considerado o critério adequado, o texto ponderou que "ele pode incentivar a prática de supernotificação do número de casos da doença".

Não consta no relatório nenhuma afirmação de que a prática estivesse ocorrendo ou que houvesse indício disso. Relator do processo, o ministro Benjamin Zymler afirmou que não havia evidência de supernotificação, mas orientou que o Ministério da Saúde fosse informado sobre a possibilidade e monitorasse os casos.

O próprio Ministério da Saúde, em resposta a um pedido feito via Lei de Acesso à Informação, em março deste ano, declarou que a quantidade de mortes por covid-19 não era o único critério observado para calcular os repasses às unidades federativas.

Estudos indicam que país sofre de subnotificação de casos

Se tirar de lá [covid como causa da morte] o crescimento de 2020 em relação a 2019 passa a ser negativo.
Presidente Jair Bolsonaro em manifestação

Há estudos e pesquisadores que indicam que o país sofre de subnotificação de casos e óbitos por causa da baixa testagem da população.

Um artigo da USP aponta que o aumento de óbitos registrados como SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) pode significar que muitos deles são por covid-19, mas não foram identificados como coronavírus. O portal da transparência do Registro Civil mostra que em 2020 foram registrados 16.846 óbitos por SRAG, enquanto a causa da morte foi muito inferior em 2019: esteve em 1.510 óbitos.

Outro levantamento, feito pela Vital Strategies, organização de pesquisadores de saúde pública, indica que as mortes a mais por SRAG em 2020 podem ter escondido até 30% dos óbitos pelo coronavírus. Em dezembro, especialistas calcularam que a subnotificação pode ter mascarado até 50% das mortes.

Hidroxicloroquina e ivermectina podem ter efeitos colaterais graves

Hidroxicloroquina, ivermectina, não faz mal nenhum (...) Nunca ouvi alguém me dizer que alguém morreu por ter tomado ivermectina.
Presidente Jair Bolsonaro em manifestação.

Não há comprovação científica da eficácia de cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina contra a covid-19. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não recomenda o uso de nenhuma das três drogas no combate ao coronavírus (links aqui e aqui).

Além de ineficaz, as medicações podem apresentar efeitos colaterais graves. No caso da cloroquina e da hidroxicloroquina, elas podem aumentar o risco de diarreia, náusea, arritmia cardíaca e danos nos rins. Já a ivermectina pode danificar o fígado.

Beneficiários do Bolsa Família receberam auxílio emergencial

Somente no ano passado destinamos mais recursos para o auxílio emergencial do que 10 anos de Bolsa Família.
Presidente Jair Bolsonaro em manifestação.

É difícil fazer uma comparação entre os valores pagos nos dois programas, pois no ano passado as famílias beneficiárias do Bolsa Família receberam o auxílio emergencial, o que reduziu o total pago pelo governo no primeiro programa.

Os benefícios possuem critérios diferentes e foram criados com propósitos distintos. O Bolsa Família, criado em 2003 para combater a pobreza no país, seleciona seus beneficiários de acordo com a sua renda. Já o auxílio emergencial foi criado na pandemia com principal foco em atender trabalhadores informais.

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