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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Bolsonaro omite dados sobre Covaxin e usa distorções para atacar CoronaVac

24.jun.2021 - O presidente Jair Bolsonaro faz live ao lado do ministro das Comunicações, Fábio Faria - Reprodução/YouTube Jair Bolsonaro
24.jun.2021 - O presidente Jair Bolsonaro faz live ao lado do ministro das Comunicações, Fábio Faria Imagem: Reprodução/YouTube Jair Bolsonaro

Bernardo Barbosa, Juliana Arreguy e Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, em São Paulo

24/06/2021 22h51Atualizada em 24/06/2021 23h51

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) omitiu, em live na noite de hoje (24), informações sobre a compra da vacina Covaxin, que é alvo de suspeitas de irregularidades, e fez uso de distorções para atacar a CoronaVac, imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, do governo de São Paulo — comandado por João Doria (PSDB), seu adversário político.

Bolsonaro disse que o governo não gastou "um centavo" com a Covaxin, o que é verdade, mas não falou que o Ministério da Saúde já reservou R$ 1,6 bilhão para a compra da vacina. O presidente também falou que a CoronaVac "está com problemas em alguns países" e citou o Chile, que lidera a vacinação na América Latina e registrou ontem (23) o menor número de casos de covid-19 desde março. Bolsonaro ainda repetiu mentiras sobre o chamado "tratamento precoce" e a suposta garantia de imunidade para quem já foi infectado com o coronavírus. Veja o que o UOL Confere checou:

Governo já reservou R$ 1,6 bilhão para comprar Covaxin

Nós não gastamos um centavo com a Covaxin."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

De fato, o governo ainda não pagou pela compra da Covaxin, mas assinou um contrato de compra de 20 milhões de doses em fevereiro e o valor da aquisição — R$ 1,6 bilhão — já foi empenhado pelo Ministério da Saúde. Isso quer dizer que este valor já foi reservado para a compra. A nota do empenho está pública no Portal da Transparência do governo federal.

Covaxin não chegou devido a entrave burocrático

Não entrou uma dose de Covaxin no Brasil."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

A chegada de doses da Covaxin não ocorreu no país por um entrave burocrático envolvendo a licença de importação, como mostrou o UOL na semana passada. A Precisa — responsável pela vacina no Brasil — alegava que cabia ao Ministério da Saúde pedir a licença, enquanto a pasta disse que ainda faltavam alguns documentos.

A importação dos imunizantes foi autorizada pela Anvisa no início deste mês mediante condições controladas, com a liberação de apenas um quinto das doses contratadas.

A Covaxin é a única vacina comprada pelo Brasil por meio de intermediários, e não diretamente com o fabricante. As doses deveriam ter chegado ao Brasil até maio.

TCU não viu sobrepreço, mas há outras suspeitas sobre Covaxin

Em março desse ano, os auditores do TCU não viram indícios de sobrepreço na vacina Covaxin."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

Em março, a área técnica do TCU (Tribunal de Contas da União) de fato disse não ter visto indícios de superfaturamento no contrato da vacina. No entanto, em outro documento sobre a compra da Covaxin, também afirmou não ter observado tentativas de negociação do preço da vacina, ou mesmo comparação com vendas feitas aos outros países, e sugeriu que o Ministério da Saúde avaliasse uma forma de negociação para obter novos valores. A Covaxin foi a vacina mais cara comprada pelo Brasil até o momento.

Além disso, a polêmica em torno da compra da Covaxin também envolve a denúncia, feita pelo deputado federal Luís Miranda (DEM-DF), de que o próprio Bolsonaro teria sido informado sobre um suposto esquema de corrupção na compra dos imunizantes, com quebra de cláusulas de contrato e histórico de irregularidades dos sócios da empresa representante da Covaxin no Brasil. O MPF (Ministério Público Federal) vê indícios de crime nas negociações, noticiou a Folha.

Não há confirmação de problemas com a CoronaVac no Chile

Vocês estão vendo aí que essa vacina, a CoronaVac, está com problemas em alguns países do mundo, como por exemplo o Chile, entre outros, no Brasil não está sendo diferente."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

O Chile é o país da América Latina com maior percentual da população vacinada: 63,9% com a primeira dose e 51% com a segunda dose, segundo o Our World In Data, painel da Universidade de Oxford. A CoronaVac é a vacina que mais foi aplicada na população chilena.

Ontem, o país registrou a menor quantidade de novos casos de covid-19 desde março deste ano, quando teve início novo pico da doença. Segundo a agência EFE, nos últimos sete dias houve redução de 20% de novas infecções.

No entanto, mesmo com o alto índice de vacinação, há três dias o país registrava mais de 90% de ocupação em leitos de UTI em algumas cidades, como a capital Santiago. Para potencializar a eficácia da imunização, o governo chileno anunciou que estuda aplicar uma terceira dose da CoronaVac — que atualmente necessita de duas aplicações. O Instituto Butantan afirma que o aumento de internações do país não tem relação com a eficácia da vacina.

Em nota, o Butantan citou uma entrevista do presidente do instituto Dimas Covas ao UOL mencionando que os novos casos ocorrem principalmente entre os grupos ainda não vacinados — principalmente as pessoas mais jovens. O Butantan também afirmou que medidas mais restritivas no Chile só foram adotadas após o início da vacinação. Uma reportagem da Deutsche Welle publicada no dia 14 cita a baixa adesão da população ao isolamento no país.

Quem já pegou coronavírus pode pegar de novo e transmitir

Quem já teve o vírus, como eu, (...) não transmite e não pega."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

O presidente mente ao fazer tal afirmação. Há casos de reinfecção por covid-19 registrados em todo o mundo, assim como o surgimento de novas variantes, que podem atingir o organismo que já teve contato com o vírus.

Um estudo do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus aponta que a variante Gamma, surgida no Brasil, é mais transmissível que a original e pode atingir quem já tem anticorpos. Outra análise do mesmo centro indica que até 31% dos indivíduos que tiveram covid-19 em Manaus após janeiro de 2021 podem ter sido reinfectados.

Uma pesquisa da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, datada de abril deste ano, confirmou que um homem de 39 anos, morador da cidade gaúcha de Campo Bom, morreu depois de ser reinfectado pelo coronavírus.

Se recuperar da covid-19 tampouco é um passe livre para deixar máscaras e aglomerar. Se a pessoa for reinfectada, ela pode transmitir o vírus para os outros igualmente. Um estudo do IHME (Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde), da Universidade de Washington, já mostrou que mesmo com a vacinação, só o uso de máscaras e o distanciamento social podem frear a pandemia.

Uso de máscaras por crianças pode variar com faixa etária

Tem criança de 2, 3 anos usando máscara. É pra usar máscara? (...) A criancinha de 2, 3 anos usando máscara, pergunte ao seu médico se isso é saudável ou não.
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

A OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) têm orientações para o uso de máscaras por crianças a depender da faixa etária.

Segundo os órgãos internacionais, para crianças até 5 anos, a indicação é que elas não usem a proteção; de 6 a 11 anos, orienta-se uma análise dos riscos para avaliar a necessidade; e as de 12 ou mais devem seguir as mesmas orientações que os adultos —com exceção de crianças com condições específicas, como algum tipo de deficiência intelectual. Nesses casos, familiares devem ponderar se é necessário.

Hoje mais cedo, em visita ao Rio Grande do Norte, Bolsonaro abaixou a máscara de uma criança de colo, cuja idade não foi especificada, e incentivou uma menina de 10 anos a retirar sua proteção contra a covid-19.

Universidade de Oxford está pesquisando ivermectina

Oxford vai aprofundar o estudo com aquele remédio que mata verme"
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

De fato, a Universidade de Oxford anunciou ontem que está testando o medicamento antiparasitário ivermectina como um tratamento possível para a covid-19. Os testes fazem parte de um estudo apoiado pelo governo britânico que busca auxiliar a recuperação de pacientes em contextos não hospitalares.

Segundo a universidade, um pequeno estudo piloto mostrou que a ivermectina resultou na redução da replicação do vírus em estudos laboratoriais, além de reduzir a carga viral e a duração dos sintomas em alguns pacientes com quadros leves de covid-19. Importante ressaltar que os estudos estão sendo feitos justamente para gerar evidências robustas sobre a eficácia ou não do remédio e os benefícios ou prejuízos de seu uso.

O medicamento é contraindicado para pessoas com doenças no fígado, que tomem medicamento anticoagulante ou outros que interajam com o antiparasitário. A OMS (Organização Mundial da Saúde), reguladores europeus e norte-americanos se posicionam contra o uso da ivermectina em pacientes com covid-19.

Ivermectina e hidroxicloroquina não podem ser usadas indiscriminadamente

O remédio pra matar piolho, ou o remédio pra tratar a malária, não têm contraindicação."
Presidente Jair Bolsonaro, em sua live semanal

A alegação do presidente é falsa. O "remédio para tratar a malária" é a hidroxicloroquina, que é "fortemente" contraindicada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde dezembro de 2020 e tem ineficácia comprovada para casos hospitalares de covid-19 desde outubro.

A hidroxicloroquina tem uma série de efeitos colaterais de diversos níveis de gravidade. O medicamento pode aumentar o risco de diarreia e náusea/vômito, o que "pode aumentar o risco de hipovolemia [níveis baixos de plasma no sangue], hipotensão e danos agudos aos rins, especialmente em condições onde os recursos para o tratamento são limitados". Em suas diretrizes, a OMS também afirma que ainda é incerta a possibilidade de a cloroquina intensificar o risco de arritmias cardíacas nos pacientes.

Já o "remédio para matar piolho" é a ivermectina, que não tem eficácia comprovada para a covid-19 e continua em testes. O medicamento é contraindicado para pessoas com doenças no fígado, que tomem medicamento anticoagulante ou outros que interajam com o antiparasitário.

Uma checagem do Projeto Comprova mostrou que a ivermectina não é segura em altas doses, não tem eficácia antiviral comprovada e deve ser utilizada apenas como antiparasitário, como indica a bula. Doses além do recomendado podem provocar intoxicação e reações que vão desde urticária até convulsão. Há também relatos de que o uso indiscriminado desses medicamentos pode causar hepatite medicamentosa.

Não existe 'tratamento precoce' para covid-19

Eu não sei por que algumas pessoas são contra o tratamento imediato."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

O presidente usou o termo "tratamento imediato", uma variante das expressões "tratamento precoce" ou "tratamento inicial". Todas se referem ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19.

Ao contrário do que Bolsonaro afirmou, não há qualquer substância que tenha eficácia comprovada para prevenção ou tratamento precoce da covid-19. Há medicamentos que controlam sintomas, como febre. Algumas substâncias vêm sendo usadas em casos de pacientes hospitalizados, como o rendesivir, cujo uso é autorizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o corticoide dexametasona. Esta reportagem do UOL publicada em março traz mais detalhes sobre medicamentos que continuavam sendo testados e outros que comprovadamente não funcionam contra o coronavírus.

Cloroquina é ineficaz e contraindicada para covid-19

Fui infectado ano passado, tomei o remédio que 'dei' pra ema e no dia seguinte tava bom."
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

O remédio que Bolsonaro "deu para a ema" é a hidroxicloroquina. Ele fez alusão a uma ocasião em que mostrou uma embalagem do medicamento para uma das emas que ficam nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente. Como já dissemos acima, a OMS contraindica a hidroxicloroquina para covid-19 e o medicamento é considerado ineficaz contra a doença desde outubro.

Repasse da União para merenda é baixo

Ficaram em casa, o governo mandou recursos para municípios e obviamente não chegou na ponta da linha para a garotada. Então, aqui em torno de 700 municípios não garantiram merenda a seus alunos.
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

O presidente fez a crítica após ler manchete do jornal O Globo do dia 21 de junho. Segundo a reportagem, 677 redes municipais de educação não garantem a alimentação escolar dos estudantes em casa, o que significa 2,7 milhões de alunos sem as refeições que eram antes feitas nas escolas. Os dados são do Painel de Monitoramento da Educação Básica no Contexto da Pandemia, da Universidade Federal de Goiás (UFG) com apoio do MEC.

A própria reportagem explica, no entanto, que o repasse da União é baixo. Definido por lei como gasto obrigatório, ele não é reajustado desde 2017. Além disso, garantir a alimentação dos estudantes enquanto estão no ensino remoto torna o valor mais alto do que a preparação nas escolas.

Salário atual do presidente não está público

O meu salário, em abril, líquido, foi de R$ 21.753, depois da portaria do Ministério da Economia, foi para R$ 23.452, quase R$ 2 mil foi o meu aumento.
Presidente Jair Bolsonaro em sua live semanal

Pelo Portal da Transparência, é possível verificar que até fevereiro Bolsonaro recebia R$ 30.934,70 em valores brutos e R$ 21.753,65 em líquidos, com as deduções do imposto de renda retido na fonte e de R$ 2.344,53 que eram abatidos do teto do funcionalismo público. Isso porque a Constituição define que a remuneração para cargos públicos, pensões e outras vantagens não pode exceder o salário dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), hoje em R$ 39.293,32.

Bolsonaro recebe os R$ 30,9 mil pela função de presidente e mais R$ 10,7 mil em outros benefícios. Por isso, era feito o corte de R$ 2.300 de seu salário presidencial.

Mas uma portaria da Secretaria de Gestão e Desempenho de Pessoal do Ministério da Economia, publicada no dia 30 de abril, criou uma espécie de teto duplo, estabelecendo que o limite de remuneração incide separadamente para cada um dos vínculos no caso de aposentados e militares inativos que retornaram à atividade no serviço público.

Com a nova norma, a remuneração bruta do presidente passaria de R$ 39,3 mil para R$ 41,6 mil, uma alta de 6%, mas não é possível verificar o atual salário bruto, nem o líquido do presidente, pois os valores ainda não estão disponíveis no Portal da Transparência. Os dados mais recentes sobre o salário de Bolsonaro são de fevereiro.

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