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Nota da Anvisa desmente tese de Bolsonaro para não se vacinar contra covid

13.out.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa durante entrega de títulos de propriedade rural em Miracatu (SP) - Arte/UOL sobre Alan Santos/Presidência da República
13.out.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa durante entrega de títulos de propriedade rural em Miracatu (SP) Imagem: Arte/UOL sobre Alan Santos/Presidência da República

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

14/10/2021 18h23

Uma nota técnica da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão do governo federal, publicada em junho desmente uma alegação que vem sendo repetida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para justificar o fato de não ter tomado a vacina contra a covid-19.

Bolsonaro tem dito que não precisa se vacinar contra a covid-19 porque já teve a doença e, por isso, teria mais anticorpos do que quem tomou os imunizantes. No entanto, na nota técnica 33/2021, a Anvisa alertou que "ainda não há embasamento científico que correlacione a presença de anticorpos contra o SARS-Cov-2 [vírus da covid] com a proteção à reinfecção".

O site da Anvisa também diz que "não existe, até o momento, a definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes — que evitam a entrada e a replicação do vírus nas células — para conferir proteção imunológica contra a infecção, reinfecção, formas graves da doença e novas variantes de Sars-CoV-2 em circulação."

Reportagens da BBC Brasil republicadas pelo UOL (leia aqui e aqui) também mostram que, segundo pesquisadores, ainda não está claro qual o grau de anticorpos que garante uma maior proteção contra a covid.

O presidente trata de forma simplista um assunto ainda bastante complexo, que é a determinação da imunidade contra a covid. O organismo tem outras formas de se proteger contra a doença que não têm relação com a quantidade de anticorpos, como explica esta nota técnica divulgada em março pela SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).

Naquele momento, a entidade esclarecia esse tipo de teste não era o ideal para atestar a imunidade gerada pela vacinação, já que apesar de exames em pessoas vacinadas por vezes não identificarem anticorpos neutralizantes, o que se vê na prática é a queda de casos graves e mortes devido à vacinação — indicando que a resposta imune estimulada pela vacinação funciona e não depende apenas destes anticorpos.

A AMB (Associação Médica Brasileira) publicou boletim em junho dizendo que o número de anticorpos não deve ser usado para "avaliar o nível de imunidade ou proteção individual contra a covid-19" e citou nota da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia) que lembra que "a resposta imune ao coronavírus é muito complexa e não se resume à produção de anticorpos neutralizantes, sendo importante, por exemplo, a avaliação da resposta celular".

"O pacote de prevenção da covid-19 continua sendo medidas de higiene, uso de máscaras, distanciamento social e vacinação", diz a nota da Asbai.

Um boletim anterior da AMB, de abril, já dizia que a determinação da quantidade de anticorpos "não é recomendada formalmente de forma rotineira para se avaliar a imunidade (natural ou após a vacina) contra a infecção pelo SARS-CoV-2", também lembrando que a resposta imune do organismo pode ser mais complexa e envolver outros fatores.

Proteção natural é arriscada

Declarações de Bolsonaro e de aliados neste sentido já foram desmentidas pelo UOL Confere em outras ocasiões (veja aqui, aqui e aqui). As alegações do presidente sugerem a tomada de riscos desnecessários em um momento em que existem vacinas que passaram por testes de segurança e eficácia. Há evidências da proteção conferida pelos imunizantes e dos perigos de se confiar em uma proteção natural no lugar da vacinação.

O CDC, órgão sanitário dos Estados Unidos, divulgou um estudo que atesta maior proteção conferida pela vacina do que por infecção do vírus. A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) alerta que o risco de morrer na tentativa de se obter a imunidade pelo contágio é muito maior do que para quem se imunizou por meio da vacina.

"Mesmo que a ciência venha a mostrar que a proteção natural de fato é melhor, nós não devemos buscar a proteção natural. Buscar a proteção natural, na totalidade dos indivíduos, ao invés da proteção da vacina, vai expor muitas pessoas a um risco de morrer pela covid, e isso é inadmissível quando você tem uma vacina que é capaz de proteger", disse a infectologista Raquel Stucchi, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em recente entrevista ao UOL Confere.

A virologista Sabra Klein, PhD e pesquisadora da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos), observou em artigo para o site da instituição que efeitos colaterais da vacina já foram previamente mapeados por pesquisadores e, portanto, podem ser tratados com maior facilidade se ocorrerem. Quanto à infecção pelo vírus, não há garantia de como o organismo vai reagir e quais sintomas ou sequelas a pessoa pode adquirir.

É preciso garantir a proteção mais completa possível, pois as pessoas têm respostas imunes diferentes ao vírus. Há quem tenha contraído a doença, por exemplo, mais de uma vez. Também é necessário levar em conta também o fato de que não se sabe ainda, ao certo, quanto tempo a proteção dura.

A vacinação é peça-chave para conter a circulação do vírus e evitar que surjam novas variantes que podem ser resistentes tanto às vacinas, quanto aos anticorpos desenvolvidos por quem já contraiu a doença. Ontem, o Brasil ultrapassou a marca de 100 milhões de pessoas que completaram o ciclo de vacinação, o que representa quase metade da população.

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