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Promotora defende trabalho da advogada de Lindemberg Alves durante júri

A advogada de Lindemberg Alves, Ana Lúcia Assad, deixou ontem o fórum sob vaias e com escolta da polícia - Leandro Moraes/UOL
A advogada de Lindemberg Alves, Ana Lúcia Assad, deixou ontem o fórum sob vaias e com escolta da polícia Imagem: Leandro Moraes/UOL

Débora Melo e Marcela Rahal

Do UOL, em Santo André (SP)

15/02/2012 12h59Atualizada em 15/02/2012 13h45

A promotora Daniela Hashimoto defendeu o trabalho da advogada de Lindemberg Alves no início do terceiro dia de julgamento do caso Eloá, nesta quarta-feira (15). Lindemberg é acusado de matar a ex-namorada Eloá Pimentel, 15, depois de mantê-la como refém por cerca de cem horas em outubro de 2008.

“A doutora Ana [Lúcia Assad] está fazendo o trabalho dela e solicito aos senhores que não confundam a doutora Ana com os fatos que aconteceram e com o réu. Peço aos cidadãos de bem que não se igualem aos criminosos”, disse no plenário.


A defensora causou polêmicas ao discutir inúmeras vezes no plenário –inclusive com a juíza do caso, dizendo ontem que ela “deveria voltar a estudar”– e afirmar que a testemunha Nayara Rodrigues mentiu ao dar sua versão dos fatos na segunda-feira. O tratamento dispensado pelos curiosos que acompanham o julgamento tem sido hostil: Assad já foi vaiada diversas vezes e teve que sair escoltada pela polícia na terça-feira.

“Agradeço de coração a iniciativa que a doutora Daniela teve”, respondeu a advogada. "Eu atribuo isso [ a hostilidade] a alguns membros da imprensa, que escrevem coisas que eu não falei. Eu fui hostilizada", alegou em entrevista a jornalistas.

Segundo dia de julgamento

O segundo dia de julgamento teve como destaque a versão dos familiares da vítima sobre o caso. Os dois irmãos de Eloá prestaram depoimento nesta terça-feira (14). O primeiro foi Ronickson Pimentel, 24, o irmão mais velho. Ele afirmou que Lindemberg é "um monstro", embora sua família o tratasse como "um filho". “Ele é um monstro, é capaz de tudo”, afirmou Ronickson. A testemunha disse que o comportamento de Lindemberg na frente da família de Eloá era completamente diferente da sua postura na rua –geralmente uma pessoa briguenta, especialmente quando jogava futebol.

Ronickson se emocionou ao citar o impacto da morte de Eloá para o irmão mais novo, Everton Douglas, 17. “Meu irmão se fechou bastante. Acho que ele se sente um pouco culpado porque foi ele que apresentou Lindemberg para minha irmã. Eles eram amigos.”

Ao dar seu depoimento mais tarde, Everton confirmou que “infelizmente” era muito amigo de Lindemberg. O irmão mais novo disse que jogava bola todo o fim de semana com o réu, que morava no mesmo conjunto habitacional da família de Eloá. “Nós jogávamos futebol e era sempre ele quem causava as brigas”, relembrou, citando o comportamento explosivo de Lindemberg.


A mãe de Eloá, que foi arrolada como testemunha da defesa, chegou a entrar no plenário para depor, mas foi impedida pela advogada Ana Lúcia Assad, que voltou atrás e dispensou o depoimento.

No período em que esteve no plenário, Ana Cristina Pimentel encarou o réu. "Não vi arrependimento nele, ele não pediu perdão", afirmou depois aos jornalistas. Ela disse que se sentia humilhada por ter sido dispensada pela defesa e disse que gostaria de ter falado. Ela completou que está preparada para ouvir o que Lindemberg tem a dizer no plenário. "O pior já passou, que foi perder minha filha", ressaltou.

Também prestaram depoimento nesta terça outras testemunhas de defesa, entre elas dois jornalistas que fizeram a cobertura do caso. A advogada de Lindemberg, Ana Lúcia Assad, já deixou claro que a linha da defesa é tentar mostrar que a imprensa e a ação da polícia também contribuíram para o fim trágico do caso. No primeiro dia de julgamento, foram exibidas reportagens de diversas emissoras de televisão, incluindo uma entrevista com o réu durante o cárcere, e trechos das negociações com a polícia.

Dois policiais que participaram das negociações para libertar Eloá também foram arrolados como testemunhas pela defesa. O delegado Sérgio Luditza disse que os planos de resgate mudaram quando o réu disse a seguinte frase: “eu estou ouvindo um anjinho e um capetinha e o capetinha está vencendo". O delegado afirmou que "estava tudo caminhando para a libertação dos reféns” até esta frase, que foi o "estopim" para a invasão da PM ao apartamento.

Também prestou depoimento por cerca de 4h o agente do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) Adriano Giovanini. Ele disse que Lindemberg “espancava muito Eloá durante o cárcere” –ao ouvir a frase, a mãe da jovem, que está na plateia, chorou muito. De acordo com o agente, o réu anunciava constantemente que ia matar a jovem e cometer suicídio. Segundo Giovanini, um tiro disparado dentro do apartamento motivou a invasão do local.

O agente também foi questionado sobre a volta da outra refém, Nayara Rodrigues, ao cativeiro. “A volta da Nayara não foi planejada, foi um excesso de confiança na Nayara porque o Lindemberg tinha dito que se entregaria na presença dela e do irmão mais novo de Eloá”, alegou.

Primeiro dia

O primeiro dia de julgamento durou pouco mais de nove horas e foi encerrado às 20h de segunda-feira (13). As quatro testemunhas que prestaram depoimento confirmaram que Lindemberg fazia ameaças de morte durante o cárcere privado. O testemunho mais esperado do dia era o da amiga de Eloá, Nayara Rodrigues, que foi feita refém junto com a jovem. Nayara pediu que Lindemberg fosse retirado da sala enquanto ela falasse.

Outros dois amigos de Eloá, que também foram mantidos reféns, afirmaram que Lindemberg os ameaçava de morte. "Ele dizia que ia fazer uma besteira", disse Victor Lopes de Campos respondendo às perguntas da promotora Daniela Hashimoto. Já Iago Oliveira afirmou que "ele ameaçava a Eloá a toda hora, e dizia que ela não ia sair viva de lá: ou ele ia matar todo mundo e se matar, ou matar a Eloá e se matar".

O sargento Atos Antonio Valeriano, policial militar que iniciou o trabalho de negociação com Lindemberg, disse que o jovem estava nervoso e dizia que “ia matar os quatro” e depois ameaçava também se matar.

Entenda o caso

Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, no segundo andar de um conjunto habitacional na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no dia 13 de outubro de 2008. Armado, ele fez reféns a ex-namorada e outros três amigos dela, que estavam reunidos para fazer um trabalho da escola.

Em mais de cem horas de tensão, Lindemberg chegou a libertar todos os amigos, mas Nayara Rodrigues acabou voltando ao cativeiro, no ponto mais polêmico da tragédia --a polícia, que trabalhava nas negociações, foi bastante criticada por ter permitido o retorno.

Em depoimento, Nayara afirmou que, após ter sido liberada, foi procurada por policiais que queriam que ela tentasse convencer Lindemberg a libertar Eloá pelo telefone. Então ela os acompanhou até o local do sequestro e foi orientada pelo rapaz ao celular a subir as escadas. Nayara disse que Lindemberg prometeu que os três desceriam juntos, mas, quando chegou à porta, viu que ele estava com a arma apontada para a cabeça de Eloá. Então, ele puxou Nayara para dentro do apartamento e não a libertou mais.

Mais tarde, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) invadiram o apartamento, afirmando que ouviram um estampido do local. Em seguida, foram ouvidos mais tiros. Dois deles atingiram Eloá, um na cabeça e outro na virilha, e outro atingiu o nariz de Nayara. Eloá morreu horas depois. Lindemberg foi preso.

O réu é acusado de cometer 12 crimes, entre eles homicídio duplamente qualificado por motivo torpe, tentativa de homicídio (contra Nayara Rodrigues e contra o sargento Atos Valeriano), cárcere privado e disparos de arma de fogo. Se for condenado por todos os crimes, a pena, somada, pode ser superior a cem anos de prisão.

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